segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Feliz Natal e um Próspero Ano novo, de novo?

Esse será provavelmente o último texto do ano. De um ano maravilhoso. Olhando para ele (o ano) agora, com boa parte dos 365 dias percorridos, posso dizer que foram mais dias bons do que ruins.

Muitos dias de sorriso, alguns dias de choro e a maioria de ansiedade. Por que será que a gente sempre quer que o tempo passe rápido e depois fica reclamando que ele, de fato, passou muito rápido? Eu sou completamente assim.

Mais um ano na minha vida ou menos um ano de vida, vai depender de como você costuma encará-lo: com otimismo ou pessimismo, fica ao gosto do freguês. Confesso que eu tento sempre encarar da primeira forma, ainda que depois eu sofra com essa opção. Mas dizem que sofrer por antecipação é sofrer duas vezes e, em alguns casos, sofrer à toa.

Todo ano é tudo igual: luzinhas nos prédios, trânsito caótico, happy-hours, confraternizações, amigos secretos (ou ocultos), lista de presentes, de compras para a ceia. Muita propaganda com o bom velhinho, tudo igual ... sempre.

Mas será que não é exatamente essa a graça do Natal? É saber que você vai se sentar à mesa e ver aquelas mesmas pessoas do ano anterior, talvez com um detalhe ou outro de diferença, mas ainda assim, essencialmente, as mesmas pessoas? Aquele primo com um novo corte de cabelo, mas com o mesmo jeito de arrumar os óculos, ou aquele tio chato que conta aquelas piadas sem graça onde só ele se diverte, ou aquele seu irmão mais novo que ainda fica babando na árvore de natal esperando o Papai Noel chegar?

Todo ano são inúmeros e-mails te desejando um Feliz Natal e um Próspero Ano-Novo, ligações, abraços, beijos e novas felicitações. E esses e-mails, cartões e abraços, geralmente te desejam a mesma coisa: um feliz natal e um próspero ano novo. Tudo igual ... sempre.

Alguns ainda trazem aquele poema do Drummond (sempre ele!) falando de que para o ano-novo ser de fato novo, você tem que merecê-lo. Tem que querer de coração que as coisas sejam mesmo diferentes, novas.

Então, eu resolvi que esse ano eu não vou desejar um Feliz Natal e um Próspero ano novo para você nem para mim. Decidi me rebelar um pouco dessa tradição de lhe desejar tudo de melhor. Vou resumir o meu desejo - para que você seja muito feliz - e saiba aproveitar aquilo que a vida lhe oferecer!

Não vou lhe desejar saúde, mas se você a tiver, aproveite isso e faça coisas boas e divertidas, mas se por acaso ficar doente, saiba focar na cura.

Não vou lhe desejar dinheiro, mas sim coragem para obtê-lo e sabedoria para gastá-lo.

Não vou lhe desejar sucesso porque isso é algo que vem ao longo de muito esforço e perseverança, de atitude e de sacrifícios. Todas as pessoas bem-sucedidas que eu conheço ralaram muito na vida para conseguirem o que têm. Mas eu te desejo toda a força e perseverança necessária para obtê-lo.

E por fim, não vou te desejar felicidade, pois ela está dentro de você. A opção em ser feliz é sua e nada nem ninguém a não ser você mesmo conseguirá alcançá-la. Felicidade é uma opção, é uma escolha simples. Todo dia ao escolher uma roupa você faz uma opção. Ser feliz também é isso, uma simples opção.

Todas as pessoas bem-humoradas, simpáticas e felizes que eu conheço também têm problemas, encheções de saco e contas para pagar. Mas elas optam por serem felizes. Simples assim. Então, esse ano vou te desejar uma ótima escolha. Espero que você perceba que no ano que vem, muita coisa pode dar errado, que muitos problemas vão acontecer. Mas o meu voto é de que ainda assim você opte por ser feliz.

E só para não quebrar totalmente a tradição, vou transcrever o poema do Drummond, porque ninguém é de ferro, né? rs

Até o ano que vem :)

"RECEITA DE ANO NOVO”

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Os Gêmeos - Vertigem

Estava lá, olhando a exposição dos gêmeos na FAAP. Nunca tinha visto nada deles antes. Se sentiu envergonhada. Até o namorado que não liga muito para o mundo cult já tinha visto uma entrevista deles no Jô Soares. E eles são muito bons.

Olhou tudo, com cara de espanto, imaginou a cara do Van Gogh se visse aquilo. Será que ele ainda molharia os pincéis com a boca, só de raiva? Não sabia. Algumas das sacadas deles estavam mais para o surrealismo do Dali. Sim, era isso, aquelas portas antigas, velhas, abandonadas, implorando para serem úteis novamente. Tiveram seus desejos atendidos. Foram penduradas como tela, pano de fundo de uma criatividade impar.

As crianças se esbaldavam com todas aquelas cores e formas e luzes piscando. O nome da exposição era vertigem e de fato, dava tanta vertigem ver a obra principal que uma senhora tropeçou nela enquanto olhava a tela. A senhora pediu desculpas, ela sorriu. Desculpas aceitas.

Notou uma criança negra com uma moça loira vendo a exposição. Jovem. Parecia ser adotada. Aquilo a comoveu. Ainda existem pessoas com bom coração nesse mundo. Livre de preconceitos e com vontade de amar, de fazer o bem. De ajudar não só os de seu sangue, de seu convívio, mas quem precisa de verdade, independente da cor da pele. Ainda que essa pele não fosse como a sua.

Saiu de alma lavada. Era domingo, fazia sol e ela ainda tinha toda a tarde pela frente. Tarde de domingo, tarde de preguiça e descanso. Antes de ir embora, olhou as réplicas do Aleijadinho. Lindas, perfeitas. Lembrou que não gostava muito desse apelido dele. Pensou que nunca tinha ido a Minas Gerais ver suas obras. Colocou esse destino mentalmente em sua lista. Viu os vitrais, o sol que refletia sobre eles e que tornava tudo ainda mais bonito.

Suspirou fundo. Fim de semana perfeito. Descia as escadas da FAAP. Ela e sua mania de fazer tudo ao mesmo tempo. Falava ao celular, olhava o jardim e pensava em coisas outras. Perdeu o chão, escorregou e caiu. Dor, muita dor. Dor física e dor na alma. Vergonha. Seu fim de tarde se resumiu a gelo, calminex e cataflan gel.

Lamentou o ocorrido. Teria sido um fim de semana perfeito não fosse a queda. Passou a semana refletindo o ocorrido. O fim de semana foi sim perfeito. Ainda com a queda, ainda com a dor, afinal, a vida é feita de altos e baixos ou de arte e de queda... e vertigem.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O amante de Lady Chatterley – D H Lawrence


Achei o livro curioso, em especial por ter sido proibida a sua veiculação na Inglaterra de 1926. Foi considerado obsceno e incriminado pelo Decreto de Publicações Obscenas de Londres.

O autor morreu sem saber que seu livro seria mais tarde considerado um dos cem melhores romances do século. Concordo com essa classificação, o livro, de fato, é muito bom. Num primeiro momento, o livro fala de amor, mas Lawrence fui muito além da história clássica de infidelidade, ele contextualizou o romance com as questões políticas e literárias da época nos diálogos dos personagens.

Ele trata da história de Constance, uma jovem escocesa que se apaixona e se casa com o baronete Clifford Chatterley. Após a lua de mel ele vai lutar na Primeira Guerra Mundial e volta para casa paraplégico. Sabendo da sua atual situação, o marido diz à esposa que ela pode encontrar um amante e lhe dar um filho.

No início, achei curioso o desapego de Clifford para com a sua esposa. Ele seria capaz de aceitá-la dormindo com outro desde que não o abandonasse, e ainda, criaria um filho de outro homem como se seu fosse. Me parece um pouco de altruísmo demais num único homem. Será que isso aconteceria, de fato, na vida real?

Constance, a princípio, se recusa a procurar um amante e casta, mantém-se submissa a cuidar do marido inválido, até se envolver com Olive Mellors, o guarda-caça da família. O cenário do livro se passa em Wragby, local onde se demonstra a transição entre o ruralismo e a industrialização. O lugar possui uma mina de carvão, onde a classe operária trabalha insanamente até não terem suas forças exauridas.

O autor faz críticas ao modelo capitalista da época e aparentemente odiava a relação criada com o homem e o dinheiro. Mellors o amante de Constance, por exemplo, demonstrava ser avesso ao capitalismo, achava que o dinheiro escravizava o homem e lhe tirava todas as virtudes. Seu trabalho consistia em criar faisões, uma vez que na propriedade de Clifford ninguém caçava. E ele era feliz assim.

É do romance entre Constance e Mellors que Lawrence descreve as cenas de sexo dos amantes. Ele glorificava a alegria dos corpos durante o sexo, o que para ele é uma das leis mais importantes da natureza.

Lawrence fala de sexo em seu livro com naturalidade, o que de fato, deve ter chocado a sociedade dita puritana do início do século passado. Mas não achei qualquer vulgaridade ou obscenidade em seu texto, muito pelo contrário! As cenas de sexo descritas se passam entre um homem e uma mulher que se apaixonam e demonstram a intimidade e a cumplicidade partilhada pelo casal.

É engraçado notar o avanço que alcançamos do início do século passado até hoje. Vejo com felicidade que muito da hipocrisia que existia no passado já ficou para trás e que se na época o livro foi considerado uma desonra, hoje ele se tornou um clássico da literatura. Sensual, é verdade... mas ainda assim, um clássico.

: : TRECHO : :
“Constance parecia transformada em mar, ondas que se inchavam e subiam em surtos impetuosos até que, lentamente, toda a massa obscura entrasse em ação – oceano a palpitar sua sombria massa silenciosa. E lá embaixo, no fundo dela, as profundezas do mar se separavam e rolavam lado a lado com o centro onde o mergulhador imergia docemente mais fundo; e ela se sentia alcançada cada vez mais no fundo, e as ondas de si mesma iam rolando para alguma praia, deixando-a descoberta; e cada vez para mais longe rolavam, e a abandonavam, até que, de súbito, numa delicada convulsão, o mais vivo do seu espasmo foi alcançado; ela o sentiu alcançado – e tudo se consumou: seu “eu” esvaiu-se; Constance não era mais Constance, e sim apenas mulher.” Pg. 215

: : FICHA TÉCNICA : :
O Amante de Lady Chatterley
LAWRENCE, David Herbert
Best Bolso Edições, 2008
376 páginas
ISBN 978-85-7799-012-2
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