quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Notas do Subsolo – Dostoiévski


O livro é dividido em duas partes, sendo que na primeira, o morador do subsolo (não se sabe o nome dele), dialoga com o leitor e expõe de forma muito ácida todos os problemas, todas as coisas e pessoas, tudo o que está errado e certo ao seu redor, nem mesmo ele escapa de sua análise e quando ele resolve se descrever, o faz com tamanha honestidade e desempenho crítico que você imagina o que vem por aí.

“Sou um homem doente, um homem mau, um homem desagradável”

Ele faz um jogo inquisitivo como se dialogasse com o leitor, e vai respondendo às suas próprias perguntas de forma astuta e mordaz e deixa claro todo o seu asco pelas pessoas com quem convive e inclusive com ele próprio. Deixa claro que sabe de sua condição medíocre e por isso mesmo, por saber ser medíocre não faz nada para mudar isso.

“Conclusão final senhores, é melhor não fazer nada! É melhor a inércia consciente! Pois então, viva o subsolo!”

Ele não tem nome, não tem amigos, família ou esposa. Apenas um criado com quem se diz obrigado a conviver e por quem nutre sentimentos de ódio e desprezo, mas ao mesmo tempo, como é o único ser que o atura, acaba o mantendo por perto. Creio que ele seja a pessoa mais instável do ponto de vista psicológico que já vi/li. Não é à toa que Freud e Nietzsche gostavam tanto de Dostoiévski. Ele conseguia criar a tese e a antítese dentro de um único ser, o morador do subsolo.

“(...) Deixe-nos a sós, sem livros e ficaremos confusos, perdidos, não saberemos a quem nos unir, o que devemos apoiar; o que amar e o que odiar; o que respeitar e o que desprezar.”

A segunda parte do livro exemplifica a primeira onde o narrador demonstra por fatos e atos o ser odioso e complexo que é. Ele quer ter amigos mas não acha nenhum à sua altura. Vê muito claramente o defeito em cada um dos supostos candidatos. Mas ao mesmo tempo, como sofre por não tê-los, tenta, ainda que os odiando, juntar-se a eles. Tudo o que consegue é afastá-los ainda mais.

“Eu os odiava terrivelmente, embora fosse até pior do que eles. Eles me pagavam na mesma moeda e não disfarçavam a repugnância que sentiam por mim.”

Tenta então se aproximar de um desconhecido, mas passa também a odiá-lo e ao mesmo tempo que o odeia, o respeita e fica durante dias tramando um duelo com o tal desconhecido; e exatamente por odiá-lo e respeitá-lo fica planejando tudo nos mínimos detalhes para que ele consiga provar ao desconhecido a sua superioridade (!)

“Os preparativos, no entanto, exigiram muito tempo. Antes de mais nada, durante a execução do plano eu teria de estar com a melhor aparência possível”

Ele tenta também ser um herói e deixa até essa impressão em certa parte do livro, ao aconselhar uma prostituta a deixar essa vida “fácil”, mas logo em seguida consegue desfazer toda a boa impressão que ele criou dizendo e fazendo coisas boas e se torna uma pessoa extremamente mesquinha e cruel. Entre todas essas ações e omissões, vai justificando ao leitor o porquê de dizer e agir daquela forma. Ele se torna, então, o anti-herói e se justifica por ser assim.

“Um romance precisa de um herói, e aqui foram reunidos intencionalmente todos os traços de um anti-herói (...)”

Mas o mais incrível é que faz isso tudo dialogando de forma astuta e inteligente com ele mesmo, por vezes com os personagens dos livros e ainda com o próprio leitor. Todos esses diálogos são compostos por frases tão inteligentes e bem colocadas que me fizeram parar, pensar, voltar e reler para tentar entender o que ele queria dizer e onde ele queria chegar com tudo aquilo.

“É melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Então, o que é melhor?”

Preciso dizer que com esse livro, Dostoiévski me deixou impressionada. Ele não seria considerado um dos melhores escritores do mundo sem motivo. O livro é muito complexo, difícil até, não pelo vocabulário, mas pelo próprio narrador, pelas coisas que ele pensa e repensa, diz e desdiz, faz e desfaz. E nesse labirinto psicológico, às vezes, ainda consegue ser irônico e “pescar” um sorriso seu.

: : TRECHO : :
“Entre as recordações de cada pessoa, há coisas que ela não conta para qualquer um, somente para os amigos. Há também aquelas que ela não conta nem para os amigos, somente para si mesma e isso secretamente. Mas, finalmente, há também aquelas que o indivíduo tem medo de revelar até para si mesmo, e um homem respeitável tem coisas acumuladas em grande quantidade. E pode ser até mesmo assim: quanto mais respeitável ele é, mais coisas desse tipo ele tem acumuladas. Eu, pelo menos, só recentemente tomei coragem para recordar algumas das minhas aventuras passadas, as quais até agora tinha evitado com uma certa inquietação.”(p.50-51)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Contos de Fadas do século XXI


Pessoas, estou um pouco sem tempo e não tenho postado com muita frequência e nem visitado e comentado os blogs de vocês. Peço, portanto, desculpas antecipadas.

Aproveitando o espaço do recado, recebi esses dois contos de fadas do século vinte e um e resolvi postar aqui.

Achei essa "repaginada" engraçadíssima! Abaixo a apologia de mulher-cinderela!

Beijos,

1. Conto de fadas para mulheres do séc. 21

Era uma vez uma linda moça que perguntou a um lindo rapaz:
- Você quer casar comigo?
Ele respondeu:
- NÃO!
E a moça viveu feliz para sempre, foi viajar, fez compras, conheceu muitos outros rapazes ,transou bastante, visitou muitos lugares, foi morar na praia, comprou outro carro, mobiliou sua casa, sempre estava sorrindo e de bom humor, nunca lhe faltava nada, bebia cerveja com as amigas sempre que estava com vontade e ninguém mandava nela.

O rapaz ficou barrigudo, careca, o pinto caiu, a bunda murchou, ficou sozinho e pobre, pois não se constrói nada sem uma MULHER.

FIM!!!

2. Conto de fadas para mulheres do séc. 21

Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas, se deparou com uma rã.

Então, a rã pulou para o seu colo e disse: - Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Mas uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir um lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para sempre...

E então, naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava: - Nem fo...den...do!

FIM!!!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Metas



Eu sou a favor das metas a serem seguidas durante toda a vida. Elas podem ser divididas em metas de curto, médio e longo prazo.
Todo ano, no mês de janeiro eu traço as minhas metas do ano e dou uma revisada nas metas de longo prazo. Minhas metas desse ano, por exemplo, eu já consegui cumprir. Dentre as metas estava entrar numa pós-graduação e voltar a correr. Está certo que não ganho uma medalha pelo cumprimento delas e nem são noticiadas no Jornal Nacional, mas mesmo assim, sinto um enorme orgulho de mim quando consigo cumpri-las.

E eis que agora eu corro e também já tenho as minhas metas de corrida. Uma delas é correr cinco quilômetros em trinta minutos. Quando eu conseguir essa façanha vou me dar de presente um short de corrida. Sempre quis um deles, mas nunca comprei um. Acho que só posso ter um se merecer, de fato.

Minha segunda meta é que, se conseguir freqüentar a academia por três meses sendo uma boa menina (e por boa menina leia-se treinar três vezes por semana, no mínimo), eu vou comprar um i-pod.

Essas são as “metas materiais”, também tenho as metas intangíveis. São aqueles pequenos desafios que eu mesma me faço quando estou correndo, como por exemplo, “vou correr durante três minutos na velocidade nove”, ou ainda, “hoje não desço da esteira enquanto não completar uma hora de treino”, ou ainda, “vou correr durante toda essa música (qualquer uma bem animada) na velocidade oito” e também “vai agora mesmo fazer musculação que eu estou mandando” (quem manda aqui é a consciência e eu estava tentando negociar com ela – em vão, é claro).

Às vezes esqueço que estou na academia e travo um embate oral (e não mental) comigo mesma, em cima da esteira. Já recebi olhares tortos por isso. Pior é quando me empolgo e canto um trecho de uma música (bem alto) que estou ouvindo. Eu sei, eu sou doida, mas juro que isso tudo, na minha cabeça, faz todo o sentido.
Para concluir, sei que uma meta seria inatingível: obrigar-me a não fazer mais metas. Isso eu sei que não consigo. E vc?

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A vida sexual de Catherine M.


Quando digo que os livros me escolhem eu não estou brincando. Um amigo, ao ler meus textos sobre sexo, me mandou uma entrevista sobre Catherine Millet, onde ela fala sobre seus últimos dois livros, sobre o feminismo, sobre sexo, sobre ciúmes, entre outros temas. Claro que o que mais me chamou atenção foi o fato de ela ter escrito um livro em que descreve suas experiências sexuais. Uma autobiografia sexual.

Alguns dias após ler a entrevista fui a uma banca de jornal ver as novidades, quando me deparei com o livro, objeto desse texto. Comprei e comecei a ler imediatamente.

Catherine é a prova viva de que a mulher consegue sim, fazer sexo sem amor. Ela consegue separá-los, quero dizer. Não que isso seja fácil para nós mulheres, mas talvez tenhamos sido condicionadas a sermos assim. Afinal, somos nós mulheres que crescemos ouvindo sobre contos de fadas e a assistindo a comédias românticas.

Existe um mito urbano de que a mulher só se entrega a um homem se estiver apaixonada ou que após o sexo ela se envolve emocionalmente com mais facilidade. De fato, acho que as mulheres por serem mais emotivas e muitas vezes mais sensíveis têm, realmente, essa facilidade, mas toda regra tem sua exceção e Catherine prova isso a cada página do livro que li.

O que mais me chamou a atenção no livro é que ela demonstra ser extremamente honesta em seu desfecho narrativo. Melhor de tudo, ela não tenta analisar ou dar explicações pelo fato de ser assim. Ela gosta de sexo e ponto. Não quer dar explicações de sua vida (pelo menos não nesse livro), quer apenas narrá-la. E o faz da forma mais explícita possível.

Catherine já fez de tudo. Transou com homens. Com vários deles, inclusive. Já transou com mulheres e até com um travesti, certa vez. Confessa abertamente ter participado de surubas e de se sentir confortável e até mesmo satisfeita em ter vários homens percorrendo o seu corpo, inclusive desconhecidos. De conseguir satisfazê-los plenamente.

Um parênteses aqui é necessário: Catherine não é prostituta (apesar de ela ter confessado em seu livro que isso passou pela sua cabeça, ou seja, se ela gostava tanto de sexo, por que não ganhar dinheiro com isso?). Ela é fundadora e diretora de uma revista de arte na França, e também escreveu um livro sobre o pintor Salvador Dali, ou seja, ela é uma intelectual e não uma mulher qualquer. Ela é inteligente e não precisava, em tese, levar esse estilo de vida, se não quisesse.

Confesso que durante a leitura vários sentimentos me ocorreram, o primeiro deles, foi a perplexidade, pois a coragem que teve essa mulher ao tornar pública sua vida sexual extremamente apimentada e descrever em detalhes tudo que já viveu choca até as mais moderninhas (como eu, por exemplo).

Em segundo lugar, após me acostumar com a linguagem narrativa e descrições explícitas da autora, no entanto, comecei a achar que faltava algo no livro. Faltava a sensação de Catherine ao praticar sexo. Cheguei a dizer que faltava um pouco de lirismo no livro. Mas foi então que, ao continuar a leitura, percebi que o lírico e o lúdico que, em minha opinião, faltava ao livro apareceram em seguida, quando ela descreve sua relação com o Jacques (que é seu marido).

Foi exatamente após a metade do livro que consegui perceber de forma clara que Catherine provou saber distinguir o “sexo pelo sexo” do “sexo com amor”. As cenas líricas e lúdicas das quais senti falta, ela só descreve quando está em companhia do marido. É curiosa, inclusive, a forma como ela aborda a questão emocional e moral da traição, afinal ambos participavam das surubas.

Passei a admirá-la não só pela coragem em ter publicado o livro, mas também por saber separar o joio do trigo, como poucas mulheres sabem fazer. Ouso dizer que Catherine é revolucionária. As mulheres passaram anos exigindo direitos iguais. A autora demonstra que atualmente as mulheres podem exigir também igualdade de desejo. Afinal, onde está provado que homem tem mais tesão que mulher?

: : TRECHO : :
“Os mesmos corpos sob as nuvens, tendo apenas Deus por testemunha, procuram uma sensação quase inversa; não para fazer que o mundo penetre na bolsa de ar onde se misturam respirações ofegantes mas, em nome de uma solidão edênica, desabrochar através de toda extensão do visível. A ilusão que se forma aí é a de que o gozo está na escala dessa extensão, que sua moradia corporal se dilata infinitamente.” (p.119)

: : FICHA TÉCNICA : :
A vida sexual de Catherine M.
MILLET Catherine
Agir Editora, 2002
132 páginas
ISBN 978-85-6170-603-6

Selos




Ganhei esse selo da Nina e ele veio bem a calhar, principalmente agora com Renan, Collor e Sarney. Socorro!!! E pra ajudar o judiciário ainda resolve ajudar a encobrir o lixo do legislativo (não sei se vocês estão acompanhando a história da censura no Estadão). Esse país não é sério ...

E esse outro eu ganhei da Mariane. São fofos, não são?




segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Amor em meio a sexo, drogas e rock’n roll


Vi uma reportagem semana passada que me fez repensar alguns conceitos. Foi publicado no jornal The New York Dailly, a história de dois jovens que, fotografados durante o Woodstock, permanecem juntos até hoje.

A foto é bacana e mostra bem como o foi o festival: uma festa sem muita divulgação organizada numa fazenda sem muita estrutura com vários cantores talentosos e onde choveu torrencialmente. A conclusão disso foi que tudo virou a maior lama. Mas, alheios a sujeira e a baderna, um casal de namorados abraçados parece compartilhar um momento especial e que se tornaria histórico: afinal eles estavam em WOODSTOCK.

O mais incrível é que, quarenta anos depois, o casal de namorados foi entrevistado e eles ainda estão juntos! Não é incrível isso? Fiquei tão feliz com essa notícia... Em tempos de efemeridade de sentimentos, de relacionamentos descartáveis e da rapidez em que se casa e descasa atualmente, ver que existem pessoas que conseguem resistir às diferenças e dificuldades ao longo dos anos me faz acreditar que isso ainda é possível.


Ao ver a foto do casal abraçado num edredom limpinho, com cabelos brancos e rostos enrugados me fez admirar a capacidade de abstração deles. Imaginem o que esses dois não passaram juntos? Imaginem por quantas vezes não tiveram que ouvir e se calar, ou tiveram que pedir desculpas ou ainda tiveram que suportar coisas e pessoas que não lhe agradavam para manter um casamento feliz ou no mínimo amistoso?

O que mais me agradou, além do fato de eles estarem juntos, foi o fato de isso ter acontecido em meio a uma filosofia difundida à época de “amor livre”. A pílula já tinha sido inventada e as mulheres conseguiram desvincular o sexo do ato de ser mãe. E mesmo em meio ao sexo e amor livre que eram tendência na época, e mesmo com a oficialização do divórcio esse casal continuou firme e forte um ao lado do outro.

Acho que ninguém se casa pensando em se separar e também não acho bacana pessoas que mantém um casamento de fachada só para manter as aparências. Não é disso que quero tratar em meu texto, muito pelo contrário. Muitos casamentos se mantinham no passado pelo fato de a mulher não conseguir se sustentar e como dependia do marido, achava melhor mantê-lo do que passar dificuldades. Sem falar que o mundo era muito mais hipócrita...

Com a inserção das mulheres no mercado de trabalho, as esposas viraram a mesa e como já conseguiam se sustentar passaram a defender sua autonomia e independência de forma pioneira, o que me faz ter muito orgulho da evolução atingida.

Mas toda essa “facilidade” que adveio de uma junção dos fatores já mencionados fez com que uma avalanche de separações fosse iniciada. Vejo que muitos casais se casam e com um ou dois anos de casados se separam e daí podemos concluir duas coisas: (i) foram escolhas equivocadas que poderiam ter sido constatadas durante o namoro; (ii) atualmente as pessoas desistem de viverem juntas nos primeiros sinais de dificuldade.

Não quero aqui julgar ninguém. Não estou levantando nenhuma bandeira a favor ou contra algo. A única coisa a ser exarada com esse texto é a admiração que sinto por um casal que esteve junto em Woodstock, que amava os Beatles, os Rolling Stones e o Jimi Hendrix e que estão juntos até hoje para mostrar que além do sexo, das drogas e do rock’n roll, existe também o amor. E ele pode, de fato, amadurecer e gerar frutos.

PS: Graças a paciência e boa vontade da Ana Luiza, esse blog passou a ter hiperlinks!
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