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O livro é dividido em duas partes, sendo que na primeira, o morador do subsolo (não se sabe o nome dele), dialoga com o leitor e expõe de forma muito ácida todos os problemas, todas as coisas e pessoas, tudo o que está errado e certo ao seu redor, nem mesmo ele escapa de sua análise e quando ele resolve se descrever, o faz com tamanha honestidade e desempenho crítico que você imagina o que vem por aí.
“Sou um homem doente, um homem mau, um homem desagradável”
Ele faz um jogo inquisitivo como se dialogasse com o leitor, e vai respondendo às suas próprias perguntas de forma astuta e mordaz e deixa claro todo o seu asco pelas pessoas com quem convive e inclusive com ele próprio. Deixa claro que sabe de sua condição medíocre e por isso mesmo, por saber ser medíocre não faz nada para mudar isso.
“Conclusão final senhores, é melhor não fazer nada! É melhor a inércia consciente! Pois então, viva o subsolo!”
Ele não tem nome, não tem amigos, família ou esposa. Apenas um criado com quem se diz obrigado a conviver e por quem nutre sentimentos de ódio e desprezo, mas ao mesmo tempo, como é o único ser que o atura, acaba o mantendo por perto. Creio que ele seja a pessoa mais instável do ponto de vista psicológico que já vi/li. Não é à toa que Freud e Nietzsche gostavam tanto de Dostoiévski. Ele conseguia criar a tese e a antítese dentro de um único ser, o morador do subsolo.
“(...) Deixe-nos a sós, sem livros e ficaremos confusos, perdidos, não saberemos a quem nos unir, o que devemos apoiar; o que amar e o que odiar; o que respeitar e o que desprezar.”
A segunda parte do livro exemplifica a primeira onde o narrador demonstra por fatos e atos o ser odioso e complexo que é. Ele quer ter amigos mas não acha nenhum à sua altura. Vê muito claramente o defeito em cada um dos supostos candidatos. Mas ao mesmo tempo, como sofre por não tê-los, tenta, ainda que os odiando, juntar-se a eles. Tudo o que consegue é afastá-los ainda mais.
“Eu os odiava terrivelmente, embora fosse até pior do que eles. Eles me pagavam na mesma moeda e não disfarçavam a repugnância que sentiam por mim.”
Tenta então se aproximar de um desconhecido, mas passa também a odiá-lo e ao mesmo tempo que o odeia, o respeita e fica durante dias tramando um duelo com o tal desconhecido; e exatamente por odiá-lo e respeitá-lo fica planejando tudo nos mínimos detalhes para que ele consiga provar ao desconhecido a sua superioridade (!)
“Os preparativos, no entanto, exigiram muito tempo. Antes de mais nada, durante a execução do plano eu teria de estar com a melhor aparência possível”
Ele tenta também ser um herói e deixa até essa impressão em certa parte do livro, ao aconselhar uma prostituta a deixar essa vida “fácil”, mas logo em seguida consegue desfazer toda a boa impressão que ele criou dizendo e fazendo coisas boas e se torna uma pessoa extremamente mesquinha e cruel. Entre todas essas ações e omissões, vai justificando ao leitor o porquê de dizer e agir daquela forma. Ele se torna, então, o anti-herói e se justifica por ser assim.
“Um romance precisa de um herói, e aqui foram reunidos intencionalmente todos os traços de um anti-herói (...)”
Mas o mais incrível é que faz isso tudo dialogando de forma astuta e inteligente com ele mesmo, por vezes com os personagens dos livros e ainda com o próprio leitor. Todos esses diálogos são compostos por frases tão inteligentes e bem colocadas que me fizeram parar, pensar, voltar e reler para tentar entender o que ele queria dizer e onde ele queria chegar com tudo aquilo.
“É melhor uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Então, o que é melhor?”
Preciso dizer que com esse livro, Dostoiévski me deixou impressionada. Ele não seria considerado um dos melhores escritores do mundo sem motivo. O livro é muito complexo, difícil até, não pelo vocabulário, mas pelo próprio narrador, pelas coisas que ele pensa e repensa, diz e desdiz, faz e desfaz. E nesse labirinto psicológico, às vezes, ainda consegue ser irônico e “pescar” um sorriso seu.
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“Entre as recordações de cada pessoa, há coisas que ela não conta para qualquer um, somente para os amigos. Há também aquelas que ela não conta nem para os amigos, somente para si mesma e isso secretamente. Mas, finalmente, há também aquelas que o indivíduo tem medo de revelar até para si mesmo, e um homem respeitável tem coisas acumuladas em grande quantidade. E pode ser até mesmo assim: quanto mais respeitável ele é, mais coisas desse tipo ele tem acumuladas. Eu, pelo menos, só recentemente tomei coragem para recordar algumas das minhas aventuras passadas, as quais até agora tinha evitado com uma certa inquietação.”(p.50-51)







