sexta-feira, 10 de julho de 2009

Papéis Picados

Foi assim que tudo acabou. Que o sonho chegou ao fim. Eu olhava a minha volta e não conseguia conter as lágrimas. Olhava para elas e elas retribuíam o olhar e entendiam todas as palavras que meus olhos diziam porque a boca não ousava se abrir.

Aquilo realmente tinha que acabar um dia, e acabou. Mas passou tão rápido, foi tudo tão bom, tão inexplicavelmente bom que talvez seja exatamente por isso que não sentimos passar. Lembrei-me da primeira vez, do primeiro encontro, do primeiro papo.

Lembrei-me também da primeira bebida nos bares próximos e do primeiro pedido para camuflarem a minha fuga. Elas me ajudavam, colocaram meu nome nos trabalhos que não fiz, me passavam as matérias das aulas que não assisti e me ouviam sempre que eu tinha algum comentário dramático ou divertido a fazer.

Elas não só ouviam, elas escutavam e balançavam a cabeça em sinal de concordância para toda frase que eu dizia, elas sempre me falavam alguma coisa reconfortante para me consolar ou alguma coisa divertida para me fazer sorrir.

Mas hoje era o fim. Nunca mais as veria todas as noites. Nunca mais seríamos tão espontâneas, tão jovens, tão despretensiosas como éramos nessa época. A grande fase, que naquele dia já parecia saudosa, estava chegando ao fim.

Foram inúmeras festas, vários churrascos, muitas viagens. Idas aos bares foram incontáveis, aos restaurantes também. Toda sexta-feira era dia de irmos a algum lugar diferente para comer, beber e comentar sobre a semana que havia passado. Para maldizer as provas que iam começar, para ridicularizar os professores que odiávamos e elogiar os que gostávamos.

Mas naquele momento, com os papéis picados caindo do teto ao chão, os olhos já exprimiam o vazio que sentiríamos nos próximos anos. O vazio da falta que fará a presença cotidiana de cada uma delas. Ah, elas, sempre elas, minhas amigas, todas queridas. Cada qual com seu charme único, com suas loucuras e doçuras que durante cinco anos eu pude saborear.

Cada uma tomará um destino diferente, umas se casarão primeiro, outras solteiras continuarão. Algumas vão querer ter filhos, outras talvez não saberão. Talvez alguma adote uma criança, mas isso só o tempo dirá.

Mas hoje, nesse momento, estão todas vestidas de gala, com os olhos marejados, mas que, por trás dessas lágrimas escondem-se sonhos, planos, projetos, e todas querem que eles dêem certo, todas querem o seu lugar ao sol e que o sol as deixem quentes, felizes, sorridentes e seguras.

Nesse momento, com os papéis caindo, ouvimos a voz de uma mulher ao microfone que pede para que as pessoas que conviveram durante os cinco anos de faculdade se abracem, se cumprimentem e que celebrem esse momento único. Esse momento que ficará para sempre em nossas lembranças e que talvez levaremos conosco até o fim de nossos dias.

Cumprimos o pedido. Nos abraçamos, choramos, nos emocionamos. E depois dançamos, até os pés não agüentarem, até o raiar do sol, até o começo de mais um dia, o dia depois do fim. O fim com sabor de começo. O começo de um novo tempo, tempo de frio na barriga, frio na barriga de medo. Medo do desconhecido, medo do que virá.

O tempo passou, e muita coisa mudou. A freqüência dos encontros, o estado civil de algumas, a jornada de trabalho de todas e os salários também. Todas ainda possuem os mesmos olhos, mas os semblantes já não são os mesmos. Elas amadureceram, sem dúvida que sim. Os olhos são os mesmos, mas a forma de olhar o mundo mudou, e para melhor.

Já passamos dos vinte e poucos, algumas já estão nos vinte e muitos, outras como eu, já se enquadram nos trinta. E todo encontro parece um revival daquele tempo de faculdade. As moçoilas voltam a falar as mesmas besteiras, a agir como se o tempo não tivesse passado. A preocupação dá lugar a espontaneidade e a alegria alivia e acalma a dura rotina que todas levamos.

Esse é o maior presente que a faculdade trouxe para mim. Todas essas mulheres, todas essas amigas que compartilham meus melhores e meus piores momentos. Agora nem sempre pessoalmente. Algumas vezes por telefone, outras por e-mail, e também pelo msn e orkut.

Era isso que o tempo iria nos ensinar. Que naquela noite, a dos papéis picados, não era um fim, mas sim um recomeço. A amizade não acabaria, somente pelo fato de a presença não ser mais diária, ela será para sempre.
Aqui vai o meu muito obrigada a cada uma, por tudo e para sempre. Se as amigas são as irmãs que escolhemos, hoje eu vivo numa família feliz.

12 comentários:

  1. De ler sorrindo e chorar...
    De tanta alegria!

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  2. Ana.
    Que relato bacana e emocionante.
    A vida é feita de fases, e essa do convívio na Faculdade é inesquecível, basta ver os encontros que comemoram 10, 20 ou 30 anos de formatura.
    Parabéns!
    Um beijão!

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  3. Época de faculdade é maravilhosa. Sinto muita saudade das chopadas, das farras, da tensão nos corredores nas semanas de prova, dos amigos, das risadas, de tudo o que vivi intensamente. Foi sem dúvida alguma, a melhor época da minha vida!

    Gostei demais desse texto, bateu saudade...

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  4. Lindo e emocionate viu..adorei ler esse post...

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  5. Quase que não consigo terminar de ler... me vejo me despedindo de minhas amigas daqui a alguns meses.
    Agradeço a elas também por tudo que fizeram em minha vida. Pra sempre elas estarão no meu coração e em minhas lembranças. E sempre que eu vou falar de mim, um pouco delas estará presente.

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  6. Nossa Ana, pelo visto você eu estou tão nostálgica quanto você...
    Eu me lembro de ter olhado nos olhos dos meus amigos, quando fomos expulsos as 7 da manhã do salão de festas da minha formatura... e n havia nada a dizer, somente choramos, rimos, lembramos ... foi algo lindo, inesquecível
    Ai que saudade...

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  7. Ah Anaa, quase chorei lendo. Espero realmente que no final do terceiro ano, aos nos abraçarmos na formatura, só tenhamos ainda mais certeza de que aquilo é só o começo!

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  8. Infelizmente a vida vai nos afastar de algumas dessas pessoas. Mas as que se mantiverem próximas, serão para a vida toda.

    bj

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  9. Falou e disse!!Cada palavrinha do seu comentario cabe a mim, so que eu tenho um probleminha(zao)a mais, eu nunca melhoro os pontos negativos, as vezes so por birra, que vergonha, nao tenho mais idade pra fazer birra, ainda mais se nao melhoro a que mais se prejudica sou eu, mesmo assim continuo a mesma sempre... Dá pra entender?!!
    Bjooo
    Dorei o comentario!!
    :D

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  10. ahhh,
    pode?
    ainda faltam dois anos e meio pra eu ter a minha chuva de papel picado mas já me dá saudade...
    lindo seu post Ana.

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  11. Ana!ao ler seu post,me encontrei nele,figurando o papel principal.Todos os meus sentimentos vc escreveu,os papeis picados que me marcaram tanto e me fizeram chorar, aos abraços e despedidas.Acabei minha faculdade em 2008.Pedagogia .Era a mais velha e convivi com jovens como vc,e por estar solteira na época(divorciada)participei de atividades como vc descreveu.Isso quer dizer que pode não ser o final, mas só o termino de uma fase.Outras iguais poderão acontecer igualmente feliz.É só voltar a estudar.Acredite,é tão emocionante quanto a primeira.Gostei demais do seu post.um abraço para vc

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