quinta-feira, 5 de março de 2009

Supermercado

Ir ao supermercado pode ser uma experiência sociológica. Sim, é verdade, é no supermercado que você conhece o verdadeiro caráter (e nele pode ser incluído os hábitos alimentares) das pessoas.

Entro no supermercado próximo de casa. Seu slogan é “lugar de gente feliz”. Ao chegar, no entanto, aquilo mais parece um inferno. Todo mundo trabalhou o dia todo e só quer comprar algo que lhe encha a pança, sentar em frente a tv e não pensar em nada mais além de “nossa, tenho que ir dormir”.

Preciso dar o braço a torcer para um detalhe importante, no entanto. A questão das cestinhas foi resolvida (vide texto do Kilove). Talvez tenha sido o preenchimento, meses atrás, daquele papelzinho que fica próximo à saída, aquele mesmo de sugestões, críticas e reclamações. Ao pegar um desses pensei: será que crítica e reclamação e sugestão não são a mesma coisa? Ou será que a sugestão seria uma crítica construtiva, a reclamação uma crítica negativa? bem, deixa isso para lá, preenchi o papel reclamei, ou melhor, sugeri que nesse supermercado tivessem cestas suficientes para fazermos nossas compras. Funcionou!

Esses departamentos que cuidam de sugestões, críticas e reclamações (quase) sempre funcionam. Acho que o mundo está ficando mais civilizado, ou talvez as empresas (finalmente) sacaram que você deixará de ser cliente se não te tratarem bem. Tudo em função do capital (ismo) que faz girar o mundo.

Pego minha cestinha na porta do supermercado. Entro na fila para comprar pão francês (sim, pão francês de carboidrato simples, aquele realmente odiado por todas as nutricionistas por não terem fibras, por quebrarem mais fácil no seu estômago, darem menos saciedade, etc, etc). Penso no cardápio da noite: pão francês com polenguinho, recheado com bife e cebolas fritas – o típico “churrasco” dos botecos mais conhecidos.

Sim, meus senhores, eu também como essas coisas politicamente incorretas, devo admitir. E como feliz. Se você está lendo indignado esse texto, digo que como não só um, como dois, à noite e acompanhado de uma long neck. Prato que qualquer leitora da revista “boa forma” abominaria com todas as suas forças. Mas sou feliz assim, muito feliz.

Voltando. Estou na fila do pão e na minha frente está uma senhorinha idosa, muito simpática e faladeira que só. Puxou assunto comigo e falou tanto, mas tanto, que o moço do pão teve que perguntar mais de uma vez: quantos pães, senhora?

Pego meus pães, lembro que o estoque de miojo de casa acabou (sempre recorro a eles quando chego em casa tarde, faminta, e sem vontade de pedir comida pelo telefone). Pego dois. Vejo que o prazo de validade é longo e pego mais três, cinco no total.

Vou para a fila que considero a menor e que (em tese) vai andar mais rápido. 99,9% das vezes a fila vizinha anda mais rápido. Não sei se é Murfy ou aquele papo de que o jardim do vizinho é sempre mais florido. Acho isso um pouco papo de doido, afinal, lá não tem vizinho e, muito menos, jardim.

Eis que finalmente chega minha vez de pagar. Coloco minhas compras no balcão do caixa: cinco miojos, uma cebola, dois pães franceses, uma caixa de polenguinho e uma long neck. Estou com o livro que estou lendo nas mãos. Me atrapalho um pouco para colocar a cestinha no chão, ao lado do balcão do caixa.

Nesse momento um rapaz educado me ajuda nessa operação. Percebo que ele está me observando muito atentamente. Primeiro, olhou o meu livro, depois olhou para as minhas compras. Comecei a pensar o que aquele sujeito deveria estar pensando a meu respeito.

Pensamento dele: “Ela mora sozinha, a julgar pelas coisas que está comprando. Nossa, cinco miojos! deve ser um para cada dia da semana. E essa cerveja? Vixe, ela é dessas que comem miojo, pão branco, tomam cerveja e depois reclamam das celulites que aparecem na bunda.” Fiquei com vontade de falar para ele: “olha, eu não vou comer tudo isso não. Eu guardo para emergências. Acho melhor ficar quieta. Ele vai pensar que sou doida. Nesse momento, começo a ficar com vergonha de mim, das coisas que como, do livro que estou lendo.

- Cartão fidelidade? Nota fiscal paulista? Pergunta a atendente do Caixa. Respondo não às duas perguntas e passo a embalar o mais rápido possível as minhas compras. Digito minha senha para o cartão de débito e saio do supermercado o mais rápido possível.

Não sei se era a fase do mês em que eu me encontrava. Prometi que a partir daquele dia não compraria mais de dois miojos juntos e que estava na hora de tomar o remédio para TPM.

3 comentários:

  1. Vou te falar, hein?!
    Qdo eu morei na Inglaterra fui caixa do Tesco (um supermercado tipo o lugar de gente feliz aqui), e era em uma unidade pequeneninha, perto do centro e as pessoas recorriam a ele na hora do almoco (pq os ingleses, estranhamente, almocam qq coisa sempre, pq iam as mesmas pessoas todos os dias!!), e devo admitir que me identifiquei muito com o caixa que vc descreveu...
    hahahaha... Ficava pensando tudo isso da compra das pessoas!!
    Tinha um cara que todo dia comprava seus sonhos, o outro que todo dia comprava uma mini compra de cafe da manha que era bizarra de tanta coisa, e por ai vai...rs...
    Acho que vc leu mesmo os pensamentos do meu colega!!! ;-)
    bj bj

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  2. E a Chamis, by the way!!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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