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quinta-feira, 25 de junho de 2009

Nosso amor de ontem


Foi assim que acabou: com lágrimas, tristeza e vazio.
Alguém já disse que a tristeza que sentimos quando um amor chega ao fim não é exatamente pelo fim, mas por todo um futuro interrompido. Vocês não vão mais compartilhar as pequenas coisas: a cor do vestido novo, o próximo filme em cartaz, a piada engraçada que você ouviu no trabalho. Os detalhes do quotidiano não serão mais debatidos durante o jantar.
Não existe mais o “nós”, só o “você”. Não existe mais um par. E você aprende a conviver como ímpar, como uma só, sem segredos comuns, lençóis divididos, medos compartilhados.
O tempo passa, cada um segue a sua vida.
O que fica?
A lembrança dos bons momentos, tudo o que se aprendeu com a relação e o amadurecimento sem fim que ainda hoje acontece.
Foi amor? Sim, foi. Mas não foi eterno.
O amor eterno é o atual, porque ainda não acabou.
Nosso amor de ontem, hoje é só lembrança. Boa ou ruim, mas ainda assim, lembrança.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Fidelidade Masculina


“EU NUNCA VOU TE ABANDONAR” era o que estava escrito em uma camiseta de um cara na rua. Fiquei imaginando o real sentido daquela frase. Seria para uma mulher, para a mãe dele ou seria uma dessas campanhas publicitárias que ficam testando a reação das pessoas, pensei comigo.

Imaginei que se o cara teve o trabalho de escrever isso em uma camiseta, ele seria o ser mais "cute" do planeta. Imagina se meu namorado resolve escrever uma declaração de amor numa camiseta para mim? Ok, eu sei que ele gosta de mim, mas pendurar faixas e escrever em camisetas não é o estilo dele.

A história da camiseta ficou em minha cabeça e comentei com um colega de trabalho. Ele riu para mim e disse: “Ah, são os corinthianos que lançaram essa moda, a frase “eu nunca vou te abandonar” está no fato do Corinthians ter ido para a segunda divisão e que nem assim o sujeito vai deixar de torcer pelo time.

Fiquei olhando para o meu colega e tentei entender o que levaria um homem, macho, peludo a fazer uma declaração explícita para um time e não para a sua esposa, namorada ou ficante. Explicando melhor: é "cool" para a linhagem masculina ter uma camiseta declarando seu amor a um time, mas se fosse para a sua mulher, pegaria mal.

Ok, depois as mulheres é quem são complicadas. Os homens não choram com o fim de um relacionamento, mas se o time perde o campeonato, sai de baixo: é uma choradeira e ladainha sem fim. Aparecem até na televisão com lágrimas nos olhos e cara de desconsolo tentando fingir que aquilo não era real.

Sinceramente, na minha cabeça essa devoção masculina não faz o menor sentido. Mas pensando bem, se meu namorado aparecesse com uma camiseta, escrito “Eu nunca vou te abandonar, Ana Paula”, eu acho que terminaria com ele. Tem coisa mais brega?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Super Bowl - a visão feminina do futebol americano



Não vou negar. A primeira vez que prestei atenção a todos aqueles homens no campo foi meramente pelas suas calças claras e agarradinhas. “Como são interessantes esses jogadores” disse ao meu namorado que assistia ao jogo com uma cerveja na mão. Ele me olhou de soslaio e me disse em tom irônico: “Se você prestasse atenção ao jogo e não na bunda dos jogadores gostaria ainda mais desse jogo ianque”. Resolvi conferir. Não tinha nada melhor para fazer mesmo.

E olha amiga, preciso dizer. Fiquei viciada. Não só naqueles homens fortes, altos e de calças agarradas, mas também no jogo.

Para quem não tem noção do que venha a ser o futebol americano: é a coisa mais excitante que já vi. Nada comparado ao chatíssimo jogo de futebol a que estamos acostumadas, o futebol americano é uma disputa homem a homem por território. Quer coisa mais sexy do que isso? É testosterona o tempo todo, vale muito a pena conferir.

Ele mistura força bruta com inteligência e ainda beleza (que o diga nossa amiga Gisele, a Bündchen!). Basicamente, para simplificar a regra do jogo, vence o time que conseguir atravessar o gramado e invadir com a bola em mãos, o território do time rival.

Para isso são aplicadas técnicas de guerra (aquelas paredes humanas formadas pelos armadores – que são os bruta-montes) táticas de guerra (onde os “quarterbacks” organizam as jogadas e determinam os avanços dos seus jogadores) e ainda as técnicas dos agarradores (calma mulherada não é isso que vocês estão pensando – eles são os “wide receiver” e treinam para pegar as bolas que lhe são jogadas pelos demais jogadores).

A diferença do futebol nacional para o futebol americano é a dinâmica do jogo. Ele dificilmente fica monótono. Ainda mais se quem estiver narrando for o Paulo Antunes (aliás Paulo, um beijo e “CHEGA!” – senão meu namorado me mata). Ele consegue te fazer levantar da poltrona e vibrar com as jogadas.

Esse é meu segundo super bowl, o primeiro foi o ano passado. Eu sempre torço contra o favorito para dar mais emoção. Ano passado deu certo (minha amiga Gisele que me desculpe, mas foi sensacional ver o Tom Brady com cara de pastel ao perder o campeonato). Esse ano a zebra não pegou, ou melhor o Pittsburgh Steelers ganhou o campeonato.

Estou gostando tanto dessa história de futebol americano que quero assistir um jogo ao vivo, no estádio. Eu vou assistir ao jogo, mas também vou olhar os jogadores e meu namorado vai olhar as cheerleaders (que também são um espetáculo).

No último jogo, o super bowl, é tão famoso lá na terra dos comedores de Big Mac, que sempre tem um show de algum rockstar no intervalo. Esse ano foi o Bruce Springsteen. Espero que no ano que eu for assistir, tenha show do Chris Cornell. Daí sim, tudo ficaria perfeito!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Por que os homens buzinam?


Eu não tenho carro. Eu tinha um, mas resolvi vendê-lo. Quando fui morar sozinha, achei que seria mais inteligente vender o carro, alugar um apê perto de um metrô e aplicar o dinheiro para, um dia, comprar o meu próprio cafofo.

Como não tenho mais carro, passei a caminhar todos os dias, ao menos 30 minutos, o que ajudou a endurecer um pouco a bunda. Achei ótimo. Estava treinando corrida numa academia, mas desde que mudei para o cafofo, estou enrolando para me matricular em outra. Isso faz mais de um ano. Por isso mesmo, a caminhada passou a ser importante.

Eu me considero bonita. O processo de auto-aceitação foi longo, mas agora, aos 30 anos, vejo que ser magricela é uma vantagem (e com o tempo percebi que esse é o sonho de qualquer mulher: comer e não engordar). Creio que fiz alguma coisa certa na vida anterior para ser contemplada com isso: posso comer uma pizza inteira de frango com catupiry, acompanhada de uma cerveja à noite, que não engordo. Claro que não faço isso, digo, não como uma pizza inteira. A cervejinha eu tomo, ainda mais quando está esse calor absurdo.

Eu me considero bonita, mas já adianto que não sou linda, e por ser magra não sou do tipo gostosona: não tenho bundão, peitão, pernão, nada disso. O meu único AO é o cabelão, que mantenho por insistência do namorado. É quase estratégico: como não gosto muito de receber ordens dele, toda vez que ele resolve querer mandar em mim (parar de sair com as amigas aos finais de semana, falar menos palavrão, ter menos amigos homens, etc), eu falo: está bom, mas, se eu fizer isso, corto o cabelo. O cabelo sempre vence, e eu também.

Eu me considero bonita, mas não sou nenhuma mulher de parar o trânsito. Mas preciso dizer uma coisa: invariavelmente, ao caminhar até o trabalho, recebo uma “buzinada”. Buzinada de caminhão, buzinada de ônibus, de moto, de carro. Nesse último, tem as mais diversas variações: carros chiques, carros feios, carros velhos, carros novos.

Ainda não consegui entender por quê os homens buzinam. Perguntei ao meu namorado: “amor, por quê os homens buzinam?”, Ele respondeu com outra pergunta: Por quê você está perguntando isso?”, “Curiosidade”, respondi. Ele perguntou: “por quê, você está recebendo muita buzinada?” “Responde logo”, retruquei, ele começou a resmungar (quando faz isso é porque está com ciúmes) e disse que ele não buzinava.

“Ok, acredito em você, mas ainda não respondeu, por que os homens buzinam?” “Para chamar a atenção, ele respondeu”. “Atenção?” Perguntei. “É, para você olhar para ele, para o cara se sentir desejado, por diversão, sei lá. Homem é escroto, já te disse”.

A conversa acabou assim. Ele não estava gostando do rumo da prosa e resolvi mudar de assunto.

Hoje de manhã, quando vinha trabalhar, recebi uma buzinada o assunto voltou à tona na minha cabeça. Por que os homens buzinam? Deve ser mesmo para chamar a atenção. Mas buzinam para qualquer uma, ou tem critério de seleção? Basta estar andando, na rua e pronto, ganha uma buzinada? Já recebi buzinada acompanhada de outras amigas, logo, não é preciso estar sozinha para receber uma.

Algumas vêm seguidas de beijo. Os caras buzinam e mandam beijo. Não é bizarro? O fulano nem me conhece, não sabe nada de mim, mas se sente íntimo o bastante para me mandar um beijo. Percebo que talvez o fato de estar mais velha ou de usar roupa social inibe investidas mais vulgares. Quando era mais novinha, ouvia vários absurdos (eu quase sempre respondia indignada: “vai falar isso para sua irmã, seu animal”). Hoje em dia, os buzinadores se tornaram mais cautelosos. Acho que devem ter receio pelo simples fato de que, exatamente por não saberem com quem estão lidando, devem ter medo de se encrencarem. É só uma teoria que desenvolvi, não tem fundamentação jurídica, nem social, nem psicológica.

Será que é um fenômeno mundial? A globalização passou a interferir também na buzinada de outros países, ou será que é só uma tradição tupiniquim, pensei. Os americanos não devem buzinar com medo de serem processados. Ser advogado lá deve ser uma maravilha, penso automaticamente: o que não falta é processo. Os italianos buzinam, com certeza. Talvez seja de lá que herdamos a tradição do “fom fom”. “Italiani sono tutti coglioni”[1], diria meu professor de italiano.

Acabo de receber um e-mail, uma amiga vendeu o carro, para comprar outro. Vai aproveitar a redução do IPI para comprar um novo mais barato. Andará de metrô, como eu, até lá. Ela não sabe ainda, mas vai voltar a ser alvo das buzinadas. O fato é que os homens buzinam, ponto final. Pelos meus anos de buzinada passiva, percebi que os buzinadores são de todas as classes sociais e de todos os perfis: do playboy ao pobretão, do roqueiro ao pagodeiro. Eles buzinam porque gostam, concluo. Assim como as mulheres comem chocolate porque é gostoso.

Não deve ter explicação científica. Não passa de uma bobagem quotidiana. Acho que vou levar esse tema no próximo happy hour feminino. E viva o cabelão!
[1] Os italianos são todos idiotas

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O incrível Ricardinho


Ricardinho é um personagem que está no livro do Vargas Llosa e que é apaixonado por uma mulher, desde os seus 10 anos de idade. Ok, e daí? Você deve estar se perguntando.

O que me chamou a atenção no Ricardinho está na página 30 do livro. Quando ele finalmente vai transar (fazer amor é brega, vamos combinar?) com a sua adorada, ele recita um poema chamado “Material Nupcial” do Pablo Neruda[1]. Eu já conhecia o poema, porque adoro o Neruda.

Comprei uma vez aqueles pocket books com os poemas mais famosos dele e me encantei com o que li. Está na minha lista de desejos do site submarino, uma coleção completa dele e vou comprar assim que meu cartão de crédito permitir, é claro, e isso só vai acontecer depois que eu pagar todos aqueles sapatos que comprei no fim de ano (foram 09 pares no total) e que eu, induzida pelo clima natalino e pela vendedora simpática que ficava repetindo: “a gente parcela em 5 vezes, compra sim, você merece”. Comprei... Agora chega, vou falar do Ricardinho.

Então menina, o Ricardinho declama o poema enquanto transa com a moça. Na hora em que li isso, fiquei arrepiada. Será? Pensei perplexa. Será que existe homem assim? Eu nunca conheci nenhum e olha, apesar de não ter transado com tantos caras assim, todos os que passaram pelos meus lençóis, nenhum nunca, jamais, declamou um poema para mim assim, na hora do “vamos ver”.

Meu namorado atual consegue ser doce (quando quer, é claro) e gentil, mas nunca declamou um poema para mim, ainda mais no momento imediatamente anterior de transarmos.

Depois do susto, comecei a pensar se eu iria mesmo gostar de ter um Ricardinho na minha cama. Será que depois de declamar o poema ele pediria, delicadamente para eu abrir as pernas? “Amor, você poderia abrir as perninhas para eu enfiar o meu pauzinho na sua xoxotinha?” Será que ele diria algo assim, ou na hora do ato ele seria másculo e viril, me pegaria pelos braços e me faria gemer mais do que mulher quando está em trabalho de parto? Ou será que ele continuaria meigo e gentil, mexeria devagarzinho e de forma enfadonha, fazendo eu olhar para o teto e fingir um orgasmo (sim, meu amigo, as mulheres fazem isso).

Agora eu fiquei na dúvida. Eu sempre achei que só os gays fossem sensíveis como as mulheres e que para os homens só existissem o “8 ou o 80”. Sem meio termo. Sem falsas ilusões.

Reli o trecho do livro. A moça que está com o Ricardinho parece um saco de batatas. O autor deixa claro que ela não está curtindo aquela transa. Ela parece não gostar dele (digo isso porque ela pode estar reprimindo o sentimento e não quis se declarar, ou mesmo pode gostar dele, só que ainda não reparou). Isso às vezes acontece.

Ela não está gostando. Como é mesmo o nome dela, não lembro agora. O livro não está aqui perto. O nome dela é irrelevante. Ela é uma puta sortuda e não aproveita direito o Ricardinho que está lá, em cima dela, tentando dar o melhor de si.

Acho que o Ricardinho é o verdadeiro príncipe encantado (ele, aparentemente, parece ser sensível e delicado na hora que tem que ser e um “macho copulador” na hora que tem que ser). Eu nunca vou saber se ele é assim mesmo. Ricardinho são apenas palavras escritas e, no mundo das palavras, você consegue deixar tudo perfeito. É só ter boas idéias e um bom corretor ortográfico.

[1] Poema Material Nupcial de Pablo Neruda

De pie como un cerezo sin cáscara ni flores,especial, encendido, con venas y saliva,y dedos y testículos,miro una niña de papel y luna,horizontal, temblando y respirando y blancay sus pezones como dos cifras separadas,y la rosal reunión de sus piernas en dondesu sexo de pestañas nocturnas parpadea.
Pálido, desbordante,siento hundirse palabras en mi boca,palabras como niños ahogados,y rumbo y rumbo y dientes crecen naves,y aguas y latitud como quemadas.
La pondré como una espada o un espejo,y abriré hasta la muerte sus piernas temerosas,y morderé sus orejas y sus venas,y haré que retroceda con los ojos cerradosen un espeso río de semen verde.
La inundaré de amapolas y relámpagos,la envolveré en rodillas, en labios, en agujas,la entraré con pulgadas de epidermis llorandoy presiones de crimen y pelos empapados.
La haré huir escapándose por uñas y suspiros,hacia nunca, hacia nada,trepándose a la lenta médula y al oxígeno,agarrándose a recuerdos y razonescomo una sola mano, como un dedo partidoagitando una uña de sal desamparada.
Debe correr durmiendo por caminos de pielen un país de goma cenicienta y ceniza,luchando con cuchillos, y sábanas, y hormigas,y con ojos que caen en ella como muertos,y con gotas de negra materia resbalandocomo pescados ciegos o balas de agua gruesa.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Advogado x Adevogado

Poucos sabem, mas existe uma grande diferença entre advogado e adevogado. Ambos são formados e possuem a inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil, sendo assim podem advogar legalmente. Mas a grande diferença está no advogar e no adevogar.

O advogado é sisudo e distinto. Sisudo porque usa sempre ternos de bom corte e gravatas elegantes. Distinto porque sabe tratar seus clientes sempre com a maior educação. Estudou muito, a vida inteira e tinha fama de nerd na escola, porque sempre tirou boas notas, e tem uma grande bagagem. É dotado de garbor e elegância.

O advogado passa no Exame da Ordem de primeira (no máximo na segunda tentativa). O adevogado entra com Mandado de Segurança para exercer a profissão sem precisar passar na prova. Como ainda não pode advogar, digo, adevogar, pede para algum amigo adevogado mais experiente assinar a peça e como seus fundamentos jurídicos são parcos, como era de se esperar, a peça é indeferida.
Sendo assim, ele tenta cinco exames, faz nove vezes o cursinho preparatório e faz até promessa para Santo Expedito para tentar ser aprovado. Quando consegue, conta para a família inteira, a mãe chora e ajoelha para agradecer a Deus e o pai conta no trabalho todo orgulhoso que o filho conseguiu “a vermelhinha”. O adevogado sai exibindo a carteira até no cinema quando pedem sua identidade só para mostrar que é “dotô”.

O adevogado adora muitas cores, ele usa camisa marrom de microfibra, gravata vermelha (de tricô ou não), terno claro, e acha que está bonito. As cores são sempre um atrativo especial na vestimenta dele. Ele sempre acha que quanto mais, melhor, mesmo que (na maioria das vezes) elas não combinem.

O advogado é culto. Ele gosta de ler vários livros. Ele gosta de literatura de um modo geral, mas especialmente dos clássicos nacionais e internacionais. Aliás, sua biblioteca pessoal é geralmente invejável. Ele discute assuntos variados e se arrisca em artes e filosofia. O adevogado também lê, mas seu gosto por leitura é duvidoso: geralmente está com um livro de auto-ajuda nas mãos, que comprou em sebo, é claro. Se você perguntar que livro marcou sua vida, ele vai responder, todo orgulhoso, “O código da Vinci”. E quando, você for discutir algum livro interessante que acabou de ler, ele vai citar algum livro jurídico (de preferência, de poucas páginas) e dizer que está tentando “decifrá-lo”.

O advogado gosta de ópera, gosta de concertos e vai à pinacoteca. Seus filmes preferidos são os europeus. Ele freqüenta o Reserva Cultural e vai ao teatro. O adevogado adora Cinemark, onde assiste a todos os filmes norte-americanos e prefere os de ficção científica como “Homens de Preto”, “O dia depois de Amanhã” e “Armagedon”. Também adora um pagode e quando o assunto é barzinho, põe logo uma camisa florida com estampas grandes e chamativas, óculos na cabeça e corrente (pode ser de coco, banhada a ouro, ou essas correntes grossas de prata) e sapatênis, afinal adevogado que se preze deve ficar sempre “bem vestido”.

O advogado pode ou não trabalhar com causas grandes. Mas geralmente seu trabalho, por sem bem valorizado, envolve assuntos de grande complexidade e por isso mesmo, grandes quantias de dinheiro. O adevogado trabalha com cível, família, criminal (inclusive Tribunal do Júri), tributário (geralmente execução fiscal), trabalhista, multas de trânsito e inventários. Enfim, sua especialidade é ser generalista. Seu escritório geralmente fica no andar de cima de uma padaria. Ele pode ou não ter uma imobiliária e também tratar de assuntos relativos a condomínio.

O adevogado adora ser síndico. Ele gosta de dizer “data vênia” nas assembléias condominiais para que fique evidente a todos os seus ilibados conhecimentos jurídicos. Apesar que, pouco entende de português, escrevem “tão pouco” ao invés de tampouco e comenta numa reunião com cara de sério: “não podemos cometer erros craxos” (!) e partindo da “primicia”, (ao invés de premissa) são exemplos verdadeiros que já foram presenciados pela minha pessoa.

Vive recebendo cobrança de cartão de crédito, de cheque devolvido, de protestos em seu nome. Mas, sempre proclama a sua profissão e ameaça processar a empresa de cobrança, que tenta, sem êxito obter algum acordo.

O advogado geralmente tem conhecimento da existência do adevogado e se sente muito infeliz pelo fato de que o senso comum geralmente confunde o primeiro com o segundo. Que fique claro: adevogado e advogado não se confundem. Eles são muito diferentes, apesar de que são todos intitulados como “doutores”.
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