segunda-feira, 27 de abril de 2009

O diabo usa Mastercard


“Existem saques através do Cartão Saque em seu nome e que ainda não tiveram suas contas prestadas até a presente data. Solicitamos a prestação de contas em até 05 (cinco) dias, e o não cumprimento desta, implicará na cobrança com cópia para sua Gerencia e Auditoria Interna. “

Foi assim que começou a minha segunda-feira. Sem um “bom dia”, sem um“tudo bem?”, sem um “foi bom o final de semana?”. Nada disso. Em lugar das perguntas, apenas uma constatação (correta), um pedido formal, seguido de uma ameaça (quase) satânica. A empresa em que trabalho fornece um cartão de débito onde é possível sacar dinheiro para pagar pequenas despesas corriqueiras.

Ui, que medo! Lembrou-me a fase da vida onde éramos ameaçados com castigos se fizéssemos ou não fizéssemos algo. Se você fizer arte, vai apanhar, se não escovar os dentes, vai ficar com cárie, se não estudar, não vai passar de ano. Tudo muito impositivo, sem uma conversa franca, sem uma explicação plausível. Apenas a ditadura do medo (im)positivo.

Tenho que confessar que tais coisas me aborrecem. Será que algo aconteceu para não ter prestado a conta de um dinheiro que usei, mas que não foi para gozo próprio? Sim, é verdade, o bom senso e a consciência sempre me frearam em utilizar o dinheiro alheio para benefício próprio, principalmente o dinheiro corporativo. Definitivamente não tenho aptidão para a política brasileira...

Não pediram explicações, mas talvez deveriam. Seria muito fácil explicar a razão da não-prestação-de-contas. Oras, bolas, macacos me mordam! Como fazer para pagar uma guia em Campinas, receber o comprovante, via correio ou malote, preparar o formulário e enviá-lo eletronicamente em questão de (poucos) dias?

Concordo que o mundo moderno agilizou o contato e demonizou nosso fluxo de trabalho. Tenho inveja de quem trabalhou somente com a máquina de datilografia e com o telex.
Explico. Deveria ser muito mais fácil a vida de quem não via saltando trabalho pela tela do computador, pelo telefone fixo e celular, tendo que ter respostas inteligentes, sacadas dinâmicas e planejamentos inteiros na cabeça para vomitar tudo em cima de espectador (ocioso e,) ansioso.

Mas a agilidade moderna não superou todos os obstáculos, ainda temos dificuldades em conseguir resolver todos os “pepinos” que surgem em nossa existência, em pensarmos se somos ou não felizes fazendo o que fazemos numa segunda de manhã, ou principalmente em fazer a prestação de contas de um dinheiro sacado para ser aplicado no próprio trabalho, no prazo pré-estabelecido, segundo conceitos não muito práticos.

É uma pena não servirem drinks no horário de expediente ...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Ensaio sobre a Lucidez


Ciente de que mais um turbilhão de emoções tomariam conta de mim, me preparei psicologicamente para ler “Ensaio sobre a Lucidez”. Respirei fundo e mergulhei na história.

De cara, percebi se tratar do “Day After”, após o reestabelecimento da visão das pessoas-personagens contidas no “Ensaio sobre a Cegueira”. Aqui, o autor deixa claro que, após a catástrofe que acometeu aquele país, as pessoas tentaram retomar sua vida quotidiana.

Fica claro, porém, que isso nunca mais seria possível. Com o fim da cegueira, a percepção dos cidadãos passou a ser mais sensível e de fato, as coisas mudaram na vida delas. Após a limpeza das ruas, o reestabelecimento de água e da luz, foi iniciada a campanha presidencial.

O desenrolar da história é o mais interessante: o resultado das eleições foi de que os votos brancos foram a grande maioria apurada. Os candidatos existentes não foram eleitos por meio da manifestação democrática. Os políticos entraram em pânico e não entendiam como tal fato poderia suceder-se.

A lucidez a que se refere o autor tem início a partir de tal fato. É daí que se entende o que o meu amigo quis me dizer com a cegueira a que estamos atualmente sujeitos. É na tentativa do voto em branco, que aquelas pessoas, até então cegas, passaram a ver o que antes era turvo, leitoso, pouco claro.

Não vou contar o final da história, mas o que posso dizer é que esse livro, tal qual o primeiro, fez com que eu refletisse todos os detalhes do que me cerca. O que de fato aconteceria se todos os cidadãos resolvessem votar em branco. Ele não me deu as respostas, só fez aumentar os meus “porquês”.

Saramago se mostrou para mim, como um pai que ensina a dor e a delícia de viver; explicando, exibindo os detalhes que por diversas vezes não são muito visíveis, mas que, com um pouco de reflexão e de introspecção, acabam sendo revelados.

A verdade dói, meu caro, mas ela também te faz enxergar melhor. Ao terminar de ler essa obra, foi essa, a conclusão a que cheguei.

: : TRECHO : :

“(...) Também há os que expressam uma opinião diferente, protestam que as leis são sagradas, que o que está escrito é para se cumprir, doa a quem doer, e que se entramos pela vereda dos subterfúgios e pelo atalho dos arranjinhos por baixo da mesa iremos diretos aos caos e à dissolução das consciências, em suma, se a lei estipula que em caso de catástrofe natural as eleições devem ser repetidas oito dias depois, então que se repitam oito dias depois, isto é, já no próximo domingo, e seja o que deus quiser, que para isso está.” (p.26)

: : FICHA TÉCNICA : :
Ensaio sobre a Lucidez
SARAMAGO, José
Companhia das Letras, 2004
325 páginas

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Google já me corrigiu.

Pois é, isso é realmente verdade. Acho que isso deve ser encarado de uma forma positiva, como se fosse, decerto, uma crítica construtiva feita por uma pessoa qualquer. Mas preciso dizer que tal fato está aqui, engasgado em minha garganta e agora eu preciso desabafar.

Toda a minha vida, sempre fui corrigida. A primeira pessoa responsável pelas primeiras correções foi mamãe. Era ela quem dizia: “não põe o dedo aí, que dá choque”, “cuidado, você vai se machucar”, “senta direito, você é uma mocinha” “não é célebro, é cérebro“não, você não vai nesse concerto do rock”, “não é fruta-cor, é furta-cor”.

Toda vez que isso acontecia me sentia imediatamente mal, mas depois percebia o óbvio: (i) ela tinha toda razão e (ii) ela só fazia e falava isso para o meu bem. Com isso, aprendi a superar o orgulho ferido, as vontades desfeitas e a conviver com as frustrações da vida.

Mais tarde, na escola, foi a vez dos professores passarem a me corrigir. Tudo começou com simples 2 + 2 = 4 passando pela revolução francesa, até chegar nos logarítimos, matrizes e equações do segundo grau.

Hoje em dia, no trabalho ou em casa, já na vida adulta, passei a ser corrigida por todo tipo de seres: humanos e inanimados. Sou corrigida pelos chefes, pelos colegas de trabalho, pelo Word (basta prestar atenção às palavras grifadas em vermelho ou em verde, onde contêm erros), e agora também pelo google.

O google, para mim, deveria ser ensinado na faculdade. Há quem diga por aí que o google já está fazendo as vezes de Deus. Comunidades no orkut revelam crentes que comungam da opinião de que “o google é meu pastor, e nada me faltará”. De fato, bastar estar conectado à Internet e tudo será por ele revelado. Não esconde nada. Deixa tudo sempre a mão.

Mas veja bem, tudo isso tem um preço. Ele será implacável, assim como o era sua mãe, seus professores ou são hoje seu chefe ou seus colegas de trabalho. Se você errar ele apontará, sem dó nem piedade o seu erro, e ainda pisoteará sobre a sua ignorância e a deixará estampada para você ver, e concluir, é verdadeira.

Isso aconteceu comigo, hoje de manhã, ao escrever “nietzche” no google. Ele me corrigiu e disse: você quis dizer “Nietzsche”? E trouxe uma lista gigantesca de assuntos relacionados ao bigodudo.

Bem, sei que não foi por mal, que ele, assim, como minha mãe só quis me ajudar. Tudo bem, a humildade é a maior virtude do ser humano. Vou aceitar e continuar vivendo. Foi sendo humilde que aprendi que o correto é furta-cor, cérebro e que Nietzsche tem também um “esse”.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Quando a virose vira sua amiga

Estou de molho há dois dias, uma dessas viroses que agora estão na moda me pegou de jeito. Aliás, antigamente, as doenças quotidianas se dividiam em (i) gripes e (ii) resfriados. Agora, não! tudo é virose. Acho que você fica doente e quando vai se consultar e o médico te examina e não sabe bem o que você tem, fala que é uma virose para você se acalmar. Pelo menos não é dengue, meningite ou algo do tipo, é só aquela sensação de que você não presta pra nada, mesmo.
Bem, uma das coisas ruins em ficar doente é isso, você fica com aquela sensação de que é inútil porque nem trabalhar consegue, passa então a acompanhar os programas de tv que abomina só para ter certeza de que os odeia mesmo, que não mudou de opinião. Resolve então ver um desses filmes antigos que são da época da sua avó (como Casablanca), percebe que a vida seria mais inocente se fosse em preto e branco.
Fiquei pensando nessa sensação de inutilidade, que ela deve vir daquele jargão criado por algum capitalista, (creio eu) "Deus ajuda quem cedo madruga", sabe? então, acho que fazem uma lavagem cerebral na gente, desde pequenininhos para acharmos que só seremos felizes se trabalharmos bastante e assim nos sentirmos úteis e necessários no mundo de hoje.
Acho que essa história de trabalhar é boa, ainda mais se a gente faz o que gosta, mas também precisa ser tanto assim? Por que a gente não trabalha meio período e pega um cinema da sessão das quatro da tarde? Ou vai a um museu ou encontra um amigo para dar uma volta, ou vai a uma livraria? Sei não, acho que é a febre que está me fazendo delirar ...
Seja como for, acho que ficar acamada me fez reanalisar um pouco minha vida. Percebi que abandonei a corrida, coisa que me dava muito prazer e que me fazia um bem danado. A virose, então, passou a ser minha amiga, por me deixar pensar e não só trabalhar e viver no piloto automático como fazemos todos os dias.
Se ficar doente te faz pensar, acho que de vez em quando acaba sendo necessário, ou não? Talvez eu devesse pensar essas coisas sempre, mas só com a febre, com a dor no corpo é que elas ficam mais claras, mais evidentes. Cruz credo!
Bem, o médico disse que a vida útil da virose termina em dois dias, então, em tese, amanhã já estarei "zero bala" de novo. Espero que a minha vida seja melhor que a da virose, tanto em quantidade, quanto em qualidade. E viva a virose, a micose, a osteosporose, pelo menos com elas a gente repensa a vida e pensa de verdade, em como melhorar, sempre.

domingo, 12 de abril de 2009

Ensaio sobre a cegueira


Esse livro caiu em minhas mãos como que por destino. Fiquei curiosa em saber se seria muito diferente ler um livro de um escritor português. Não me refiro aqui ao idioma, mas sim, sobre a perspectiva, as opiniões e as ideias. Queria saber se me identificaria como me identifico a um escritor brasileiro, por exemplo.

Até então, pouco sabia sobre José Saramago, por isso ter classificado a leitura desse livro como destino. Li a primeira página assim que o recebi (foi um presente) e achei curioso. Li então, as orelhas do livro e a contra-capa. Foi paixão à primeira vista. Deixei o livro que estava lendo de canto e me (des)envolvi na leitura dele. Não poderia ter feito algo melhor.

A história, hoje não é mais novidade. Um homem fica cego dirigindo um carro e, a partir de então, todos os habitantes daquele país (imaginário?) ficam cegos. Mas trata-se de uma cegueira branca, leitosa, que torna o mundo de quem vê um pouco turvo. Diferente do cego tradicional que vê tudo negro, escuro. O autor ressalta a cegueira em diversas partes do livro. Tal cegueira também é visível no filme.

Um parênteses: o filme dirigido pelo Meirelles foi ótimo. Saramago até se emocionou quando terminou de assistir. Foi muito fiel. Só não tem todos os pormenores do livro porque isso é presente de quem gosta de sentir a história linha por linha e, no caso do Saramago, com poucos parágrafos.

Passei dias me recuperando do soco no queixo que tomei ao terminar o livro. Fui à nocaute, sem direito a (re)contagem. Chorei. Fiquei meio deprê. A depressão veio por saber que, se algo parecido acontecesse de fato, realmente nos tornaríamos aqueles bichos que o autor fez questão de esfregar em nossas caras. Demorou para cair a ficha da segunda mensagem por trás da história.

Todo mundo sempre comenta a cegueira que o autor descreve não tem origem justificada e que, da mesma forma que vem, vai. De fato, o autor aparentemente não menciona isso. Mas foi discutindo o livro com um amigo mais velho, que ele me abriu os olhos e me disse: “a cegueira do livro é a nossa cegueira quotidiana em aceitarmos certas coisas como verdades.”

Quando ele disse isso fiquei arrepiada. Fazia todo o sentido. Fiquei petrificada. “Caramba! Será?” respondi. Ele balançou a cabeça afirmativamente e disse que tinha certeza, tudo fazia sentido na cabeça dele. Foi então que ele me aconselhou a ler a continuação, “Ensaio sobre a Lucidez”.

: : TRECHO : :

“O medo cega, disse a rapariga de óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos” (pag. 131)


: : FICHA TÉCNICA : :

Ensaio sobre a Cegueira
SARAMAGO, José
Companhia das Letras,
2003
310 páginas

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Lei da responsabilidade afetiva


Existe Lei para tudo nesse país. Sim, se está na moda, vira Lei. Tem a Lei Seca (onde se é proibido dirigir depois de beber), tem a Lei Cidade Limpa (onde se é proibido colocar cartazes e propagandas fora dos padrões estabelecidos pelo município de São Paulo) e tem também a Lei da Responsabilidade Fiscal (onde o administrador público deve preservar o orçamento público e as contas de sua administração em ordem, até o fim do seu mandato).

Pois bem, me ocorreu sugerir um projeto de Lei onde seria exigida a responsabilidade afetiva (efetiva) de todos os cidadãos, quando do exercício de um relacionamento. Vou tentar não ser tendenciosa e dizer que o projeto de Lei vale somente ao sexo masculino, mas sim a ambos os sexos, mas digamos que sirva especialmente a eles.

Afinal, quem é que diz, na grande maioria das vezes, que vai ligar e não liga? Quem é que diz que gosta de você e quer viver para sempre ao seu lado, quando na verdade o discurso é o mesmo declamado para mais duas ou três?

Sim, as mulheres também fazem isso, mas em quantidade muito inferior, vale dizer. Isso se deve ao romantismo que está impregnado ao gene “X” das fêmeas que, apesar da onda cool das famigeradas baladas, micaretas e raves, ainda pretendem encontrar o seu príncipe, que não precisa ser tão encantado assim, e com ele viver feliz, não feliz para sempre, mas até que estejam ambos velhinhos e enrugados.

Mas como seria punido o infrator da responsabilidade afetiva? Sim, porque a prova da irresponsabilidade afetiva não me parece muito complicada de se obter. Basta o testemunho de algumas amigas de que o homem (ou a mulher) enganaram, ludibriaram seus ternos e sinceros sentimentos para que reste devidamente comprovada a infeliz infração.

Bem, acho que cadeia seria muito pesado. Afinal, todos sabemos que o sistema prisional não corrige ninguém e é muito caro ao Estado. Acho que seria prudente o (a) condenado (a) ser obrigado (a) a prestar serviços à comunidade. Ok, isso parece seria razoável. Mas nem me venha com essa de cestas básicas. Ah não, o (a) cidadão (ã) teria que ralar, trabalhar de verdade, até suar a camisa, isso sim parece corretivo.

Se fosse eu a aplicar a pena, mandaria ele (ela) pintar escolas públicas, consertar cadeiras, carteiras, quadro-negros. Cuidar de crianças, ler aos idosos, participar de teatros destinados às crianças com câncer. Quem sabe assim, sendo obrigado (a) a trabalhar e a lidar com pessoas carentes de atenção, a pessoa não aprenda de uma vez por todas que não se deve brincar com os sentimentos dos outros?

Será que se eu mandar o tal projeto à câmara ou ao congresso ele seria aprovado? É, acho que posso ao menos tentar colher algumas assinaturas para tornar a ideia um pouco mais robusta. Você aí que teve paciência para ler o texto até o final, assinaria o projeto? Afinal, como já dizia o poeta, “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, certo?

terça-feira, 7 de abril de 2009

Misto Quente - Bukowski


Ler, para mim, sempre foi algo mágico. É como se você espiasse do conforto de sua casa, pela fechadura e do outro lado estivesse um mundo cheio de aventuras prestes a serem desvendadas, algo totalmente diferente e novo. A vantagem é que você pode espiar à vontade e aprender com as experiências dos outros. Sua cabeça trabalha e imagina aquilo que seus olhos lêem e você sente, ao ler a última página de um livro, que mais uma pessoa ou mais uma história foi incorporada em sua vida.

Com misto quente não foi diferente. Esse foi meu primeiro livro do Bukowski. O escritor que ficou conhecido como “velho safado” por falar putarias e ser bem direto em relação ao sexo, se mostrou bastante interessante.

A história se passa em Los Angeles, principalmente das décadas de 1920 e 1930, ou seja, o Henry Chinaski, é um alemão que foi morar nos Estados Unidos muito pequeno e passou pelas agruras do capitalismo em crise. Ele viveu e descreve bem essa fase, quando não se encontrava empregos nem mesmo como lavador de pratos.

Chinaski era feio, o autor menciona isso diversas vezes, ele tinha muitas espinhas, não fazia o menor sucesso com as mulheres, e vinha de uma linhagem de bêbados na família. Pelo que me informei sobre o autor, boa parte das características de Chinaski podem ser vistas em Bukowski. Ele, portanto, salpica em seus personagens características pessoais e essa é a graça da história.

Chinaski tem um pai violento e uma mãe omissa. Seu pai não se conforma com sua condição pobre e gosta de manter as aparências perante os vizinhos. De fato, quando ele descreve que o pai vai até o bairro vizinho para pegar os alimentos doados pelo Estado durante a grande crise sem que nenhum conhecido o veja nessa situação, e quando ele vai todo dia trabalhar, quando na verdade não têm nenhum emprego só para manter as aparências, fica claro a necessidade de ostentar algo que ele, de fato, não tem.

A mãe de Chinaski demonstra as donas-de-casa submissas, carentes e dependentes de seus maridos, dentro dos padrões da época. O que achei curioso, no entanto, é que, durante um longo período foi ela quem sustentou a casa trabalhando como doméstica e ainda assim, se submetia às humilhações que seu marido a fazia passar e, em poucos trechos do livro defendeu o filho das surras e humilhações a que foi submetido.

Chinaski tentava ser durão, um cara que não temia nada nem ninguém. Isso parecia importante no ambiente em que vivia. Os alunos das escolas que estudavam se dividiam entre o que batem e os que apanham, e Chinaski tentava sempre se manter no primeiro time. Como nunca recebeu carinho e amor de sua família, tinha grandes problemas de relacionamento. Apesar disso, fica evidente que por trás de sua fama de machão, repousava ali uma pessoa de bom coração. Tanto que ele se tornava amigo de todos os alunos que eram esquisitos ou que possuíam alguma deficiência (um de seus grandes amigos foi o Carequinha, seu apelido vinha do fato de ele não ter, de fato, cabelos).

Chinaski também dizia não gostar muito de estudar, mas durante todo o desenrolar da história cita grandes autores que dizia ler e gostava inclusive de escrever contos. Cursou a faculdade de jornalismo e foi lá que conheceu o seu amigo Becker. A violência dispensada aos seus amigos (eles sempre se socavam, mesmo sem motivo aparente), parece vir das lembranças das surras que tomou durante boa parte de sua vida. E isso parecia demonstrar uma grande carência do personagem principal do livro.

O autor se utiliza de seu personagem para criticar o presidente dos Estados Unidos, a condição econômica de seu país, o sistema de ensino norte-americano, que foi descrito desde o ensino fundamental até a faculdade. Ele critica o sistema de trabalho quando diz: “ (...) a educação também parecia uma armadilha. A pouca educação a que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fosse retirada.”

Gostei também do final do livro. Na fase adulta, quando Chinaski vai embora de casa e passa a morar em cortiços, o autor novamente descreve um pouco de sua história auto-biográfica de bebedeiras, brigas, jogos e putarias. Putarias essas todas imaginadas, porque o personagem principal se manteve virgem até a última página do livro.

O que mais me chamou atenção, no entanto, foi como Bukowski fala por meio de Chinaski de maneira direta e sem rodeios sobre todas as coisas que considera ridículas e sem importância e que aparentemente todo mundo passa a vida tentando conquistar, ou seja, a realização do sonho americano que naquela época se transformou num pesadelo que parecia impossível de terminar.

: : TRECHO : :
“As pessoas eram limitadas e cuidadosas, todas iguais. E eu teria que viver com esses fodidos pelo resto da minha vida, pensei. Deus, todos eles tinham cus e órgãos sexuais e bocas e sovacos. Cagavam e tagarelavam, e todos eram tão inertes quanto esterco de cavalo” (p.270)

: : FICHA TÉCNICA : :
Misto Quente
BUKOWSKI, Charles
Trad.: Pedro Gonzaga
L&PM, 2008
318 páginas

domingo, 5 de abril de 2009

Teoria do Pau Pequeno


Eu tenho uma teoria e queria compartilhá-la com você. Ela não tem qualquer base científica, se enquadra mais naquela coisa que os homens acham que as mulheres têm, chamada intuição feminina.

Apesar do título já ter entregado, devo repetir no corpo do texto: a teoria que desenvolvi é a teoria do pau pequeno. Sim, meus queridos, creio eu que todo homem imbecil que pratique atitudes estúpidas, arrogantes e egoístas tenham seu pêndulo inferior diminuído.

Acho que Hitler é o maior exemplo, ele com certeza tinha o pau pequeno e ainda sofria com isso. Pense comigo, ele não era nem alemão e pregava a pureza das raças. Considerava que pura era a pessoa que tinha olhos azuis e cabelos claros. Que eu saiba ele não tinha nenhum desses atributos, certo? Então, em tese, ele também deveria ter sido morto ora bolas!

Bem, acho que esse papo de homem caucasiano era tudo desculpa, ele queria mesmo era acabar com a raça dos homens com paus grandes e das mulheres que recebiam os paus grandes. O dele, do Hitler, deveria ser menor que o do meu dedo mindinho (duro).

Voltando, sabe esses caras que te fecham no trânsito, que furam a fila na sua frente descaradamente, aqueles imbecis que te empurram e não pedem desculpas, aquele seu chefe que só te perturba, todos eles tem o pau pequenininho, pequenininho. Sim, e eles têm esse tipo de atitude exatamente para tentar uma compensação psicológica interior e diminuírem (pelo menos em tese), essa deficiência sexual.

Imaginem como deve ser difícil tirar a cueca e receber o olhar decepcionado de uma mulher? Eles não devem se sentir um macho-alfa-copulador suficientemente preparado para preenchê-la completamente. Então, o que eles fazem? Te ferram a vida, te enchem o saco, tentam se firmar por critérios cretinos que eles mesmos desenvolveram.

Para comprovar minha teoria, outro dia no trânsito, fiz uma experiência. Tomei uma fechada dum pau pequeno, mas uma daquelas fechadas que você pensa “agora fudeu” e até prende a respiração. Ao invés de buzinar, eu botei a mão pra fora do carro e, aproveitando que o “animal” estava me olhando pelo retrovisor, demonstrei utilizando o indicador e o polegar, que ele tinha o pau pequeno.

Menina, o homem ficou uma fera, me fuzilou com os olhos, queria me bater. Fiquei tão feliz por ter comprovado minha teoria que comecei a gargalhar. Ele ficou ainda mais furioso. Acho que imaginou que, além de eu ter descoberto o segredo dele, ainda estava debochando de seu “pequeno” problema.

Bem, não incentivo nenhuma mulher a fazer tal gesto, porque se além de pau pequeno o cretino for psicopata, você teria problemas. Mas encorajo-a a pensar que, toda vez que encontrar um cretino pela frente, imagine que ele tenha o pau pequeno. Pode até não ser verdade, mas que isso já vai fazer você se sentir melhor, isso vai!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Mais do mesmo




Você já deve ter lido isso diversas vezes em sua vida. No intervalo de tempo entre o acionamento do botão e a chegada do elevador, estão lá, estampados os dizeres dele. Dele mesmo, “o mesmo”.

Sim, quem nunca leu, no hall do mesmo, a seguinte frase: “antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado nesse andar”.

Dá até gastura de ler, mas o aviso está sempre lá, na sua frente, a espera de ser lido, quase implorando por atenção. E você até desvia os olhos, olha para cima, para o lado, mas ele não dá trégua, fica lá impávido, te desafiando.

Além de tudo é orgulhoso, faz questão de deixar claro que por detrás dele, há uma Lei que o suporta. Sim, meus caros, não é um simples decreto, uma portaria, instrução normativa, ou mera orientação. Está na Lei e, portanto, deve ser obedecido.

Ah, o princípio da legalidade! Funciona mais ou menos como a intenção, ela sempre parece boa enquanto projeto, mas depois que adquire forma (e número), se torna algo muitas vezes deprimente. Gasta-se com Leis mais dinheiro e mais tempo do que se deveria.

Mas voltemos ao aviso. Provável que a Lei não determine os dizeres exatos do aviso, mas alguém escreveu o texto, imprimiu e saiu por aí vendendo a ideia de que essas placas seriam a salvação de vidas (para os usuários do “mesmo”) e para os edifícios que se livrariam das multas, caso não as aplicassem.

Vejam só como são as coisas. Outro dia, ao acionar o botão e ao aguardar o “mesmo”, verifiquei uma placa com o mesmo significado, mas escrita de forma um pouco mais inteligente. Sem o uso do “mesmo”, mesmo, de verdade! Sim, isso aconteceu, acredite! Fiquei tão emocionada ao perceber que existe vida inteligente para os redatores de placas de elevadores que até tirei uma foto. Segue abaixo.



Nossa, é bom se livrar do mesmo. E viva a boa redação. E cuidado: se abrir a porta e o elevador não estiver lá, cuidado, não entrem. O mesmo pode te pegar.
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