segunda-feira, 30 de março de 2009

A Metamorfose, o Processo e Carta ao Pai – Franz Kafka



Foi nessa ordem que tudo começou. Foi exatamente assim que me aproximei da mente de um advogado que se sentiu oprimido durante toda uma vida (e pelo próprio pai).

Quando li a metamorfose, queria saber os detalhes de uma história escatológica que transformava um homem comum numa barata asquerosa e que era rejeitada (ou seria rejeitado?) pela sua família. Também pudera, pensei comigo, tinha ele que tornar-se logo uma barata? Achei que tinha algo errado aí.

Ao terminar de ler o livro, fiquei imaginando o que teria passado pela cabeça do autor para inventar uma ideia tão absurda e repugnante, mas por falta de tempo ou talvez, por preguiça mesmo, não fiz uma pesquisa mais profunda para tirar minhas conclusões.



Resolvi ler o Kafka-advogado. Achei que, como partilhávamos da mesma profissão, sua história em “O processo” me daria as pistas que para digerir o que senti em “A Metamorfose”. Ao ler os comentários do tradutor, no entanto, entrei em êxtase. Meu palpite até então sem fundamento algum, foi confirmado. A barata da metamorfose era a personificação de um sentimento reprimido pelo (brilhante) autor durante toda uma vida. Era ele a personificação da barata (que medo!).


Li “o processo” tendo tais informações como pano de fundo. O livro conta a história de um homem que é acusado de um crime que não se sabe dizer qual, por juízes que não se sabe dizer quem são, e o julgamento ocorre em lugares mais surreais já visitados pela mente humana. A busca do Senhor K. pelas informações esclarecedoras que tentam ser encontradas num labirinto psicológico personificado por casebres são de deixar zonzo.

Além disso, a descrição do fórum, do cartório, no entanto, apesar de surreais e grotescos, me lembraram às idênticas repartições públicas tupiniquins onde ninguém sabe onde está nada, tudo é muito desorganizado, desestruturado, desequilibrado, enfim, a mais completa zona.

O desfecho final de “O Processo”, assim, como o de “A Metamorfose”, me fizeram prender a respiração. Ambos os livros traduzem um sentimento de sofreguidão, embaraço e impotência que deixa qualquer um meio “deprê”. Quando ficavam muito palpáveis tais sentimentos, fechava o livro e fazia algo animado. Me assustava a forma como o autor transmitia o seu “eu” com todo seu sofrer para o papel.

Após algum tempo, criei coragem para ler “Carta ao Pai”. Essa trilogia-não-planejada, na minha (humilde) opinião foi a ordem correta para conhecer um escritor-advogado que deveria, definitivamente, ter visitado um psiquiatra bem conceituado, sem a menor sombra de dúvida!

Não encare isso como ofensa. È na verdade um conselho que daria ao autor, caso ele fosse meu amigo. Tem problemas que conseguimos resolver por nós mesmos. Outros, porém, precisamos de ajuda. O autor deixa claro, por meio de seus livros, que se enquadrava na segunda opção.



Vale dizer que carta ao pai é um desabafo de todo o ressentimento de uma vida que antes era mascarada pelos seus personagens. Teve publicação póstuma. Não deveria ter sido de domínio público. O autor havia solicitado ao seu amigo, Max Brod, que destruísse todos os seus escritos, após a sua morte. Ao invés disso, o amigo fez justamente o contrário.

No fundo, o tal amigo sabia que o autor era um gênio perturbado e que deveria ter (toda) sua obra imortalizada pela publicação. Só assim poderia, uma advogada do século 21 ler e (tentar) entender o que se passava na cabeça de um advogado do século 19.

Problemático? Ele era, mas quem não é? Sarcástico? Também, mas o sarcasmo aqui é sutil, é muito descritivo e nem sempre perceptível. Kafka poderia ser franzino, tímido, com grave sentimento de inferioridade. Mas foram tais características que fizeram eu me apaixonar pela sua obra, até mesmo pela barata (que ele pensava ter) dentro dele.


: : TRECHOS : :
A Metamorfose: “Certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos, Gregor Samsa, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, quando levantou um pouco a cabeça viu seu ventre abaulado, marrom, dividido em segmentos arqueados, sobre qual a coberta , prestes a deslizar de vez apenas se mantinha com dificuldade.”
O Processo: “De modo que num sentido rigoroso não existia nenhum advogado reconhecido pela justiça; todos os advogados que atuavam nas esferas judiciais, não eram no fundo, pois, mais do que simples rábulas”
Carta ao Pai: “Aliás, aqui basta recordar coisas ditas anteriormente: eu perdi a autoconfiança, que foi substituída por uma ilimitada consciência de culpa. (Lembrando-me dessa falta de limites, certa vez escrevi acertadamente sobre alguém: ‘Teme que a vergonha sobreviva a ele’.*). Eu não podia sofrer uma súbita metamorfose, ao entrar em contato com outras pessoas, pelo contrário, ficava com consciência de culpa ainda mais profunda em relação a elas, pois, como disse, precisava reparar os danos que, com a minha cumplicidade, você lhes havia causado.”
* Referência à frase final do romance O processo.
: : FICHA TÉCNICA : :
A Metamorfose
KAFKA, Franz
L&PM Pocket, 2001
138 páginas
O processo
KAFKA, Franz
Martin Claret, 2007
258 páginas
Carta ao Pai
KAFKA, Franz
Companhia das Letras, 2007
86 páginas

quinta-feira, 26 de março de 2009

Idas e Vindas



Eles se conheceram assim. Amigos em comum. Renata estava com vontade de suspirar por alguém novamente. Carlos não sabia exatamente o que esperar dos adjetivos que seu amigo havia empregado à Carla, afinal, uma garota “gente boa”, parece ser muito pouco específico.

Jantaram juntos. A Renata, o Carlos, os dois amigos em comum e mais um casal, amigo de só um deles. Foi um jantar agradável, num restaurante bacana e Renata tinha achado aquele rapaz todo certinho, com jeito de bom moço, muito charmoso e simpático.

Ele achou que ela era bonita, inteligente, muito segura de si e ele simplesmente babava por mulheres assim. No final do jantar, deram uma esticada até um café próximo ao restaurante e foi lá que trocaram telefones.

Renata chegou em casa e pensou: Será? Carlos ao fechar a porta e dar comida ao seu peixe pensou: Por quê não?

Combinaram de se encontrar na quarta-feira à noite, num restaurante japonês que a Renata adorava. Carlos foi buscar Renata. Ela já tinha se desacostumado a ser bem tratada e adorou a idéia. Percebeu sua empolgação ao experimentar três roupas diferentes até se decidir pela última. Isso quase nunca acontecia. Sentiu um frio na barriga. Era sinal de que tinha gostado dele.

Ao chegarem ao restaurante Renata, já acostumada ao lugar pediu as entradas e um prato gostoso que era seu preferido. Carlos ficou lá, admirando a desenvoltura da mulher à sua frente. Sentiu que ela era decidida até na hora de pedir a comida. Gostou da sensação.

Ela notou que ele comeu muito pouco e já na saída ele confessou que não gostava de comida japonesa. Foi naquele exato instante em que ela se apaixonou. Nunca tinha conhecido um homem tão gentil, tão doce que era capaz de ir a um restaurante que não gostava pelo simples prazer da sua companhia.

Ao deixá-la em casa, depois de contarem algumas piadas e ela ter rido da falta de graça de Carlos para contá-las, eles se beijaram. O primeiro beijo foi um pouco tímido no começo. Desses que você não sabe bem o que vai encontrar pela frente, mas que depois dos três primeiros segundos já sabe se gostou ou não. E ambos gostaram.

Passaram a se encontrar. Descobriram muitas afinidades apesar do temperamento tão diferente deles. Ambos gostavam de filme europeu, de viajar para o campo, de ler livros de filosofia e romances policiais. Às vezes, entravam num papo existencial dos porquês da vida, mas geralmente isso acontecia depois da terceira taça de vinho.

Viajaram juntos, muitas vezes. Os amigos dele passaram a ser amigos dela também. As amigas dela sempre diziam que ela tinha tirado a sorte grande. A vida estava ótima. Renata achava que tudo daria certo e que finalmente estava no caminho da felicidade.

Mas, (sempre tem um mas na nossa vida). Carlos recebeu uma proposta de trabalho para morar fora por três anos. Seu sonho finalmente se realizou. Ele sempre quis isso, mas só agora aconteceu. Exatamente no momento em que estava em uma ótima fase pessoal.

Eles analisaram a situação e verificraam a possibilidade de continuar com o namoro, mesmo à distância. Ela sabia que não funcionaria e que ele não desistiria da viagem por ela. Ela entendia, também não faria isso por ele. Não se pode abrir mão de uma coisa por outra pessoa, só pela gente mesmo. Ela entendeu, mas já imaginava o quanto iria sofrer.

Ela foi até o aeroporto se despedir. Os dois se abraçaram. Ela chorou até soluçar abraçada a ele. Disse que ele foi a melhor coisa que tinha acontecido para ela até aquele momento. Ele também chorou. Não tanto quanto ela, mas chorou doído e a abraçou forte.

Ela sofreu o diabo. Perdeu cinco quilos em dois meses. Não penteava mais o cabelo. Chegou ao ponto de, num ataque de pânico, agendar um vôo no dia seguinte para a Alemanha. Desistiu. Ele mal tinha tempo de falar com ela pelo msn, imagina ficar pageando ela lá longe.

Ele também sofreu. Estar num país distante, com costumes diferentes e gente desconhecida não era nada fácil. Na primeira semana quase desistiu por duas vezes. Até que a rotina no trabalho e as novidades que ele desbravava ao passear aos finais de semana, foram acalmando a ansiedade e a depressão.

E foi assim que a história dos dois teve um ponto final.

Três anos se passaram. Ele voltou. Ela soube por que ele mandou um e-mail perguntando como estava a vida e dando a notícia de seu retorno. Seu coração disparou. Ficou com as mãos geladas.

Assim que chegou, Carlos telefonou para Renata. Ela mal acreditou quando atendeu a ligação, gaguejou no telefone. Ele sorriu, achou que aquilo era um bom sinal. Não era. Ela gaguejou porque seu atual namorado estava ao seu lado fazendo cara feia.

Combinaram de se encontrar. Renata precisava saber se o Carlos que retornava era o mesmo do aeroporto. Sabia que ele teria mudado, mas sua essência poderia ser a mesma. Talvez. Ele a buscou em casa, jantaram num bistrô francês e ele contou todas as histórias hilárias que aconteceram com ele na Alemanha.

Ela contou das viagens que fez, da promoção que recebeu e do seu namorado atual. Ele não conseguiu disfarçar. Tinha odiado essa parte da história. Renata, então, disse que seu namoro havia começado mal. Deu uma pista ao Carlos. Era o que ele precisava.

Eles se casaram ano passado. Carlos quer um filho. Renata vai fazer uma imersão de inglês no Canadá e quando voltar, eles pensam no assunto.

O ponto final da história havia então, se tornado um ponto e vírgula.

terça-feira, 24 de março de 2009

A primeira vez a gente nunca esquece!

Parecia ter sido amor à primeira vista: me encantei por você logo de cara. Tinha vontade de te pegar no colo, tamanha era a minha atração por você. Você era sexy (e me deixava sexy), atraente, bonito, charmoso e ... deliciosamente disponível.

Resolvi levá-lo para casa e lá travamos nossas primeiras intimidades, toquei você, primeiro com suavidade, apenas para sentir as peculiaridades que existiam em seu corpo envolvente, pecaminoso, que despertava em mim os piores pensamentos, o pecado mais baixo, o pior de todos: a vaidade! Já cansada dessa aproximação sutil, decidi que era hora de tentarmos algo mais ousado.

Foi então, na intimidade do meu quarto, que me encaixei em você. Quando fiz isso, pela primeira vez, algo mágico aconteceu! Parecia que nunca tinha tido uma sensação dessas antes. Tudo era mais que perfeito, o toque, o cheiro, a pegada, a aparência. Você me fez esquecer os outros e só pensar em você, só querer você, estava me viciando: em você. Sim, você tinha o formato dos sonhos, a aparência que deixa qualquer uma se sentir uma diva, ao me olhar no espelho, nua, com você agarrado em mim, a sensação era de que eu conquistaria o mundo.

Já nos sentindo íntimos, chegou a hora de assumirmos ao mundo nossa relação e, resolvemos então, desbravá-lo da melhor forma: somente eu, você e mais ninguém. Minha confiança em você e em mim, continuavam alta, juntos chegaríamos onde quiséssemos e você estaria lá, sempre me apoiando, e me protegendo de todas as coisas ruins e sujas que aparecessem pelo meu caminho.

Revelaríamos a todos que pudessem ver, nossa relação que já estava sendo muito bem desenvolvida entre quatro paredes. Foi então que você, maldoso, daninho, acabou comigo. Parecia uma leve debochada, nada muito importante, mas você continuou e continuou e continuou. Fiquei arrasada, não sabia o que fazer ou para onde correr. O que antes era carinho, agora, passou a ser pressão, dor, decepção.

Você me fez sangrar em público e pior, eu nada podia fazer quanto a isso! Justamente você que deveria me proteger, resolveu me agredir! Maldito sapato novo ...

domingo, 22 de março de 2009

Como me tornei estúpido


“Eu e essa síndrome de recuperar o tempo em que ainda não era nem nascido. Quero tirar o atraso de só ter nascido na década de oitenta, quero me situar no mundo, quero ler os pilares da literatura contemporânea, ler o que todo mundo já leu e diz que é leitura obrigatória. Quero fazer parte do grupo que já leu Kafka, Joyce, Dostoiévski, Proust e Madame Bovary, quero ter minhas próprias opiniões, discutir com essas pessoas de igual pra igual, sem me sentir inferior por ainda não ter lido Dom Quixote.”

www.vacatussa.com/2008/10/as-aventuras-de-tom-sawyer-mark-twain/

Já vinha pensando em escrever textos dos livros que eu li e recomendo. Fiz (quase) isso quando indiquei o livro “Histórias de Mulheres” há alguns dias. Daí que essa Internet, às vezes, me dá arrepios. Explico. Acabei de ler “Como me tornei estúpido” do Martim Page e gostei bastante do livro. Fui procurar na Internet e descobri que ele já escreveu um outro livro (A gente se acostuma com o fim do mundo). Descobri também uma crítica dele feita pelo Thiago Côrrea. Além disso tudo, descobri que ele vem fazendo há tempos (e muito bem, por sinal), críticas dos livros que leu. Pronto. Era o que faltava para eu me animar!

Bem, confesso que gostei bastante das críticas que li, tanto que alguns livros lá indicados, eu já tomei como leitura obrigatória (a minha lista de livros a serem lidos só aumenta). Bom segue o primeiro texto então, lá vai:

Como me tornei estúpido - Martin Page

Quem nunca pensou que pensa demais? Não falo só dos seus problemas, falo dos problemas do mundo. Quem nunca sentiu vontade de um dia, simplesmente parar de pensar. Deixar a vida correr sem se preocupar, a ponto de invejar o moço que vende coco na praia, sabe? Então. O livro trata, de forma (mais) inteligente e engraçada, sobre esse tema.

Antoine é um rapaz extremamente inteligente e deveras crítico. Estudou bacharelado em biologia, é mestre em aramaico e em cinema. Tem amigos surreais, é pobre, (tudo indica que é feio), e, aparentemente não tem vida sexual. Acho que na verdade, o Antoine é sensível e romântico, isso fica explícito nas mensagens subliminares dos trechos do livro.

Ele resolve mudar sua vida, se entregar ao sistema que ele sempre odiou. Ele desiste de nadar contra a maré, porque acha que o fato de ser crítico e inteligente só atrapalha sua vida. Ele sofre, e muito! Cansado, resolve radicalizar. Para isso, se utiliza das estratégias mais estranhas e engraçadas e muda de vida, efetivamente.

Bem, não vou contar a história toda, mas é bastante crítico e te faz pensar e às vezes concordar a ponto de ficar feliz que tem mais gente no mundo que pensa como você.
Por essa razão que gostei bastante do estilo do autor e da história em si. Esse livro, na minha opinião tem um quê de autobiografia, além de ser um desabafo do autor, mas ele o faz com extremo bom-humor, o que me parece a melhor forma de criticar algo ou alguém.

Ao terminar de lê-lo, você fica com a estranha sensação de que leu o livro por algum motivo específico. Ele deveria ser lido por você.

: : TRECHO : :
“Ser curioso, querer compreender a natureza e os homens, descobrir as artes deveria ser a tendência de todo e qualquer espírito. Mas, se assim fosse, com a atual organização do trabalho, o mundo deixaria de girar, simplesmente porque aquilo demanda tempo e desenvolve o espírito crítico. Ninguém trabalharia.” (pp. 58-59)
: : FICHA TÉCNICA : :
Como me tornei estúpido
PAGE, Martin
Trad.: Carlos Nougué
Rocco, 2001
158 páginas

sexta-feira, 20 de março de 2009

O Universo conspira


Quando eu tinha 13 anos era meio hippie. Eu idolatrava todos os cantores dos anos 60 que cantavam e tocavam rock nos Estados Unidos e no Reino Unido. Essa minha fase hippie durou até os primeiros anos de faculdade, quando as saias compridas deram lugar às saias lápis e os taillers que me exigiam a profissão.

Mas o slogan hippie de faça-amor-não-faça-a-guerra ainda permanece sobre a carranca da advogada que me tornei. Esse papo filosófico-hippie de que as pessoas já nascem com sua essência (boa ou ruim) realmente faz sentido na minha cabeça.

Faz muito sentido também essas teorias (que não têm explicação científica), mas que funcionam (pelo menos comigo funcionam), de que se você focar num objetivo e pensar todos os dias em como alcançá-lo e em traçar metas, o universo conspira e a “parada acaba rolando”.

Gosto de jogar conversa fora com pessoas interessantes, dessas que têm uma cabeça boa e que não vivem em função de pré-julgamentos desnecessários e que não gostam de impor suas opiniões aos outros. Pessoas sussas, gente boa, com boa vibe, do bem.

Outro dia, conversava com uma dessas pessoas interessantes e discutíamos exatamente isso: a capacidade que o ser humano tem de realizar tudo que ele deseja, desde que tenha dedicação e planejamento para atingir seu objetivo.

Foi quando ele sacou essa frase que ficou em minha memória (isso já faz algum tempo): nós somos como pedras num lago. Se você (a pedra) se mover, toda a água do lago onde você está receberá o impacto do seu movimento e começará a se mexer também.

Quando ele me deu esse exemplo, achei a frase genial e passei a me lembrar disso toda vez que pensava em traçar a meta de algo que gostaria muito de realizar. Mas veja, não adianta ficar mentalizando que vai entrar dinheiro na sua conta ou que cheques serão enviados pelo correio como prega o livro e o filme “O segredo”. Aquilo ali é auto-ajuda barata que deixou o autor do livro milionário, ou seja, o “segredo” dele foi que só ele ficou rico com essa história.

Bom, você pode estar achando que eu bebi ou fumei um e agora estou divagando sob o efeito que alterou minha linha de raciocínio, mas vou dar um exemplo prático de como essas coisas funcionam.

Há algum tempo estava meio down por conta de algumas coisas ruins que andavam acontecendo e eu e meu namorado programamos uma viagem para um lugar bacana, uma cidade pequena e gostosa que adoramos visitar.

Deixamos as malas no hotel e fomos jantar no centro dessa cidadezinha. A caminho do restaurante, um menino apareceu e me entregou uma filipeta de papel onde estava escrito o seguinte:

“ Em meio à escuridão da noite, há sempre estrelas para quem tem olhos para olhar o céu. Em meio a um campo devastado, haverá sempre uma flor para quem sabe olhar”

Quando li essa mensagem comecei a chorar. O menino e meu namorado ficaram me olhando. Estavam espantados com a minha reação. Pode ter sido mera coincidência, mas para mim aquela era uma mensagem de esperança dada pelo Universo de que as coisas iriam melhorar.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Cansei de (tentar) ser sexy



Tem uma banda que cansou de ser. Eu cansei de tentar ser. Ainda mais hoje em dia! Trabalha-se mais do que escravo e para quê? Sei lá, inventaram que trabalhar era bom, todo mundo acreditou e agora está na moda.

Outro dia estava num restaurante e dois executivos da mesa ao lado disputavam quem trabalhava mais: “Nossa, ontem trabalhei até a meia-noite”. “E eu, que trabalhei até as duas e já estava no escritório as nove da manhã”. O outro retrucou: “Pois é, fui embora meia-noite, mas trabalhei o sábado inteiro”. Foi então que o segundo se deu por vencido. “Nossa, você ta trabalhando muito, hein?”.

Sim, as pessoas disputam para ver quem trabalha mais, essa é a nova moda. Antes era quem tinha a melhor casa, o carro mais legal. Nessa brincadeira a saúde vai para as cucuias. Quem consegue andar de manhã, fazer uma corridinha ou ir à academia? Ninguém, nem esse pobre ser que vos fala.

Daí, quando se chega aos trinta, começa a perceber que não adianta só comer doces aos finais de semana, a “pochete” começa a aparecer. A pança dá sinais de que veio para ficar. Você a percebe, mas tenta ignorar o problema para ver se ele some sozinho. Até que as calças começam a incomodar na cintura.

Vixe! Melhor parar de jantar, você pensa. Come só uma saladinha e um grelhado. Ahã, e no meio da noite acorda com um dragão dentro de você querendo comer até azulejo. Nossa, você sonha com pavês, cheeseburguers e pizza. Na manhã seguinte come por dois, não, melhor, por três. Frita até ovo e come com pão.

Daí você resolve que não vai conseguir parar de comer. O negócio é fazer exercício mesmo. Vai conhecer a academia perto de casa. A instrutora, ou instrutor chegam, sorriem, te chamam pelo nome. Mostram os aparelhos, a piscina. Todos os freqüentadores estão felizes, malhados, parecem saudáveis, atletas. Você os inveja, quer se tornar parte disso.

Matricula-se. Vai na primeira semana todos os dias. Começam os (d)efeitos. Só de pensar, dói. Todos os seus músculos reclamam e você fica mal-humorada e dolorida. Phodeu! E agora? Agora, que você começa a arrumar desculpas e não vai mais naquele centro de tortura ambulante.

Trabalha até tarde, marca happy-hours, faz de um tudo para não ter tempo de pensar nos seus compromissos desportivos e na “bóia” que continua em crescimento. Não quer nem pensar em biquíni, vai comprar um maiô preto. Podiam voltar com a moda do maiô, ou melhor, podiam voltar com as musas do Botero.

Ah, o importante é a essência, uns pneuzinhos não fazem mal, certo?

domingo, 15 de março de 2009

Até tu Machado?


Lá estou eu relendo Dom Casmurro, livro esse que talvez seja o mais polêmico de toda a obra de Machado de Assis. Releio com os olhos mais gastos, hoje com a pele um pouco mais curtida pelo tempo, e com a “memória RAM” um pouco mais preenchida com os livros que tive a oportunidade de desfrutar.

Fato é que da primeira vez que li o livro, caí na besteira de ficar indagando se a Capitu traíra ou não o Bentinho, além de me apegar a todos os aspectos históricos e semânticos de alguns trechos, pois eles cairiam no vestibular.

Hoje, no entanto, passada a fase da escolha da faculdade e da escolha correta por entre as alternativas a, b, c, d ou e, posso fazer uma análise mais crítica e apurada da obra. Calma, não precisa começar a bocejar. Crítica de livro costuma ser enfadonha, mas também não é sobre isso que eu quero falar.

Estava pensando mesmo é na Capitu. Todo mundo sempre discute a integridade da moça, mas porque a dúvida nunca recai no tal do Bentinho? Só porque ele é o narrador e muitas vezes parece distorcer os fatos, a história em si, a seu favor? Alguém que começa um livro se desculpando, deve ser, no mínimo encarado com desconfiança. Para mim essa já é uma boa evidência!

Os olhares oblíquos que a pobre moça lançava, os seus olhos de ressaca, seriam mesmo tão traiçoeiros ou será que o marido é que sofria de impotência, ejaculação precoce, ou simplesmente não gostava muito da coisa e resolveu jogar a culpa na esposa?

Sim, acho que o problema estava nele, mas como seria muito difícil admitir, ficou ele lá, tentando convencer-me durante todo o livro de que era ela (e não ele) que não prestava.

É Machado, você agiu em conluio com o maldoso Bentinho e fez toda uma geração adolescente ficar desconfiando da moça. Hoje, mais madura e mais esperta (ainda longe da maturidade e esperteza de minhas avós), já vejo Capitu como a vítima e não a vilã da história.

Talvez ela tenha traído ele, talvez não. Que diferença faz isso na minha vida? Nenhuma! Mulheres traem, homens traem. A vida continua. Mas o charme da trama não é a traição em si, mas sim a dúvida desenvolvida pelo Machado em torno do assunto, diriam os mais críticos.

Ok, pode até ser, mas olha Capitu, eu estou do seu lado. Se precisar de ajuda posso te arrumar um ótimo advogado e conheço algumas empresas especializadas em recolocação de profissionais que podem te ajudar a arrumar um emprego.

Talvez você vá ao programa da Marília Gabriela, ao Saia Justa ou na Oprah Winfrey discutir o assunto. Já estou até vendo. Você vai cursar faculdade, escrever uma tese de mestrado em psicologia e explicar o transtorno-obssessivo-compulsivo do seu ex-marido. Vai tirar 10 na argüição e começará a dar palestras sobre o assunto.

Depois disso, se você quiser, pode deixar esse Bentinho pra lá e viver sua vida mais livre, leve e solta. Seus olhos de ressaca passariam a ser um mar calmo, tranqüilo, com direito a tempo para apreciar a paisagem ao redor. E sem nenhum marido para decidir qual será o percurso a ser percorrido.
Se a Capitu vivesse hoje em dia, arrumaria um emprego, pediria o divórcio e arrumaria um garotão sarado, bonitão, e faria sexo loucamente com alguém com mais virilidade e menos imaginação que seu ex, que além de ciumento, era muito, muito chato.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Texto no Blônicas

Gente, saiu um texto meu no Blônicas (Nerd - por Ana Ganzaroli), depois leiam e vejam se vcs são nerds.

Queria agradecer à Cléo Araújo, pois sem ela eu não teria conseguido isso.

Boa sexta!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Você trabalha bem sobre pressão?


Você já deve ter ouvido essa pergunta ao menos uma vez na vida. Tenho vontade de responder com outra pergunta, e você trabalha? Veja, não quero ser mal-educada, mas fico curiosa em saber como as pessoas reagem em situações-limite.

Hoje de manhã tive a prova de que tem muita gente que não agüenta a pressão e simplesmente surta.

Andar de metrô é sempre uma experiência sociológica. Só quem anda, sabe que é verdade. Mas, hoje, no horário matutino, percebi que o trem estava mais devagar do que o normal. Deve ser por conta da volta às aulas, pensei comigo. Como estou sempre acompanhada do meu livro, não sinto o tempo passar, quando vejo já está na hora de descer na estação de destino.

Comecei a ouvir pelo alto falante que “devido a presença de usuário na linha, os trens estavam circulando com velocidade reduzida”. Pronto! Basta esse tipo de informação para se ouvir todo tipo de manifestação de desânimo e irritação dos passageiros.

Eu aproveito para olhar a reação das pessoas. Alguns aumentam o volume de seus mp3s, ipods e afins. Outros continuam a ler, sem stress. Tem os que começam a batucar para distrair a ansiedade e passar o tempo. Mas vira e mexe tem um doido junto.

Dessa vez, o doido em questão, era meio mal educado. Ele começou resmungando, mas como o alto-falante estava realmente falante, o cara começou a se irritar e dizer: “Expansão do metrô, cadê a porra da expansão do metrô?”. Os passageiros começaram a se entreolhar. O cara estava meio alterado e continuou: “É... ninguém aqui tem que trabalhar, não. Está todo mundo indo passear, puta que pariu!” Nesse momento, ele desceu e ficou na porta, mais do lado de fora do que de dentro da estação, onde o trem estava parado há uns 15 minutos e começou a xingar as pessoas que estavam do lado de fora.

Daí ele entrou de novo e continuou xingando o metrô, o Governador, o aumento da passagem, o usuário que tinha caído (ou se jogado), na via. O moço começou a estressar todo mundo em volta que tinha que agüentar, além da lerdeza do metrô, o siricutico do “figura”.

Fiquei pensando o que esse homem responderia se perguntassem a ele: “Você trabalha bem sobre pressão?” Talvez ele já estivesse sob pressão. Talvez o chefe dele fosse um imbecil, que estivesse só esperando ele atrasar para dar aquela comida de rabo (a enésima da semana), talvez estivesse se separando, ou com dívidas impagáveis, quem vai saber?

Fato é que as portas se fecharam, o trem andou e eu desci na próxima estação, junto com o “doido”.

Eu até trabalho bem sobre pressão, mas odeio. Essa vida moderna acaba com a gente.

terça-feira, 10 de março de 2009

Crise? Oba!




“Nunca antes na história desse país” se viu fenômeno igual. Estou parafraseando nosso presidente, para dizer, na verdade, que esse papo todo de crise que os economistas ficam berrando aos montes na tv também tem um ponto positivo. Afinal, sempre há um lado bom nas coisas ruins.

Sim, é verdade. O universo se encarregou em te recompensar pelas coisas difíceis que você vai enfrentar na vida. Mais ou menos aquele papo de que Deus, quando fecha uma porta, abre uma janela.

Na verdade, meus caros, estou fazendo uma introdução preliminar para discutir com vocês um assunto que apesar de aparentemente fútil, deveria ser estudado por sociólogos e psicólogos: as promoções.

Isso mesmo, promoções, sales, venditas, ou seja lá qual for o nome que você preferir. A crise instaurada, nunca deixou tantas mulheres felizes antes. Descontos que vão até 70% e não são apenas chamarizes para clientes, não senhores. Dessa vez os comerciantes resolveram realmente limpar os estoques.

Nunca se viu tantas promoções juntas em um shopping e nunca se pôde aumentar tanto uma coleção de sapatos, como agora, a preços módicos, vale dizer.

Camisas, calças, vestidos, sapatos, moules, sandálias, tomara-que-caia, bermudas, camisetas, longuetes e tamancos. Essas palavras fazem parte do vocabulário feminino. Todos os dias, nós mulheres, nos utilizamos de nossos microprocessadores cerebrais para combinar de forma harmoniosa todas essas combinações que fazem a alegria do sexo masculino e feminino também.

Engraçado observar a reação que causa uma simples palavra no cérebro feminino: PROMOÇÃO. Ao ouvir isso, as mulheres ficam logo em polvorosa, seria tão estimulante quanto um café, um energético ou uma cocaína sem seus efeitos colaterais, é claro. Automaticamente um frenesi se instala em seus corpos.

Elas querem comprar, elas querem experimentar, querem ver todas as cores, todos os modelos e todos os preços. Ficam horas colocando e tirando roupas e sapatos e imaginando todos os lugares onde poderão utilizar suas novas aquisições, todas as ocasiões onde poderão utilizar impassíveis de seu charme e todas as reações das pessoas ao vê-las assim, poderosas e elegantes.

Ao final das compras, já um pouco cansada de tanto estica-e-puxa e do põe-e-tira, reina agora a sensação de calmaria e satisfação provocadas pelo seu novo estoque de vestimentas. A sensação de tranqüilidade e calmaria dá lugar ao frenesi de outrora que seriam causados pelos Prozacs, pelos Valiuns ou pela Cannabis, mas novamente sem seus efeitos colaterais.

Sim, as mulheres se divertem com pouco, assim como as crianças. Elas se sentem muito felizes com suas novas aquisições e trocam um dia de sol na beira da piscina por uma nova coleção primavera-verão. Se estiver em promoção, então, é a glória!

Pois é, a crise está tumultuando o mundo, mas ela o está tornando, ao mesmo tempo, mais bonito e elegante. Quanto a isso, não restam dúvidas.

domingo, 8 de março de 2009

Feliz Dia Internacional da Mulher


É hoje

Dia 08 de março, o Dia Internacional da Mulher. Apesar de só ter dia especial as minorias que sofrem no cotidiano e que tais dias especiais seriam como prêmios de consolação para o preconceito que enfrentam todos os dias.

O Dia Feliz (?) das Mulheres é internacional e que ele sirva pelo menos para levantar a discussão do que falta ainda para conquistarmos (sim, ainda falta muito).

Fica aqui a dica de um livro bacana que comecei a ler “Histórias de Mulheres” da jornalista espanhola Rosa Montero.

Segue a resenha do livro:
“O ser humano sempre educou homens e mulheres baseados nas diferenças entre ambos. Isso nas tarefas, em força física e hierarquia. Na maioria dos conceitos, a mulher esteve abaixo de todos os quesitos por ser considerada fraca ou por ideologias que a colocam abaixo do homem. Quando e como isso se tornou uma regra, ninguém sabe dizer, mas as conseqüências disso são vistas ainda na sociedade atual.
Porém algumas mulheres conseguiram quebrar paradigmas. Lutaram por sua independência e auto-realização. Algumas se moldaram às regras da época para conseguir isso, outras já deram sua cara a tapa e não se importaram de serem mal vistas pela sociedade por isso.
E foi em algumas mulheres de fibras que a jornalista espanhola Rosa Montero usou como exemplo em seu livro. Histórias de Mulheres, é uma breve biografia sobre figuras importantes da cultura ocidental e o que passaram quando resolveram ser diferentes ao que a época exigia de mulheres.
O livro, que começou como uma coletânea de artigos para o jornal espanhol El País, não relata somente as histórias de mulheres que fizeram grandes feitos, algumas sequer são conhecidas do grande público (como a mãe da grande escritora Mary Shelley, criadora de Frankenstein) ou lembradas mais como esposa de alguém como de seus grandes feitos (como Zenobia Camprubi).
A autora faz uma coletânea de biografias contrastantes, mas que no fim percebemos que possuem pontos semelhantes, seja pelas conturbadas famílias, ou vidas sofridas por perdas ou problemas financeiros. Mas não só de heroínas que Rosa Montero fala, pelo contrário, algumas possuem vidas que servem de exemplo, outras, eram verdadeiras vilãs, antagonistas e algozes para àqueles que entravam em seus caminhos, como Simone de Beauvoir, que não se importava com o que os amantes ou qualquer outro estudioso pensasse: a seu ver ela e Jean Paul Sartre, seu amigo e companheiro fiel, estavam acima de tudo e de todos.
As personalidades escolhidas mostram uma vida que tocam na alma do leitor e o modo como a autora narra nos faz viajar em busca de mais informação sobre elas ou, pelo menos, relembrar seus trabalhos. Podemos sentir as obras delas revivendo quando lemos cada capitulo e percebemos como elas viviam seus personagens ou obras.
Uma delas, Agatha Christie, desapareceu misteriosamente certa vez e perdeu a memória. Muitos acreditavam que a rainha do crime (como era chamada) estava em busca de vender mais livros, mas depois de percebermos como o dia do desaparecimento foi doloroso (a morte da mãe, os problema conjugais) percebemos como uma fortaleza como Christie se mostrava, também era frágil e podia se quebrar.
Ao se falar nas irmãs Brontë (autoras de clássicos, como O Morro dos Ventos Uivantes e Jane Eyre) notamos que as adversidades que passaram estão nos seus livros (Jane Eyre relata de forma bem próxima a morte de uma personagem bem próxima da forma como as irmãs de Charlotte, a autora, faleceram quando crianças). Outro ponto chocante é saber que livros clássicos como estes, foram publicados com nomes masculinos, pois na época, mulheres não eram bem vistas como autoras. A autora ainda relata que um famoso poeta da época mandou uma delas parar de fazer poesia e utilizar seu tempo em algo produtivo para as mulheres.
Ingredientes variados são encontrados nas vidas de cada uma das quinze mulheres escolhidas – e mais alguns outros nomes lembrados com freqüência – e mostra ao leitor diferenças de vidas culturais e comportamentais ligados à época e local onde elas viveram, mas também que muitos problemas que as mulheres passam não estão ligados a um local somente, trazendo ao leitor informações interessantes.”

quinta-feira, 5 de março de 2009

Fofoca


Gente, vou fazer uma fofoca: o cafofo está ficando chique!

Foi publicado um texto (inédito) do cafofo, lá no site Brisa Rosa, a Cléo Araújo escreve nele (aliás, bem pra caramba). Além de inteligente, ela é uma fofa! Cléo, obrigada!

E agora a dona do cafofo (essa que vos fala), também vai participar como "colunista" no site Mundo Mundano, (clique em "mundanos")

Depois deem uma olhada nesses dois sites e me digam o que acham, ok?

Beijos,

Supermercado

Ir ao supermercado pode ser uma experiência sociológica. Sim, é verdade, é no supermercado que você conhece o verdadeiro caráter (e nele pode ser incluído os hábitos alimentares) das pessoas.

Entro no supermercado próximo de casa. Seu slogan é “lugar de gente feliz”. Ao chegar, no entanto, aquilo mais parece um inferno. Todo mundo trabalhou o dia todo e só quer comprar algo que lhe encha a pança, sentar em frente a tv e não pensar em nada mais além de “nossa, tenho que ir dormir”.

Preciso dar o braço a torcer para um detalhe importante, no entanto. A questão das cestinhas foi resolvida (vide texto do Kilove). Talvez tenha sido o preenchimento, meses atrás, daquele papelzinho que fica próximo à saída, aquele mesmo de sugestões, críticas e reclamações. Ao pegar um desses pensei: será que crítica e reclamação e sugestão não são a mesma coisa? Ou será que a sugestão seria uma crítica construtiva, a reclamação uma crítica negativa? bem, deixa isso para lá, preenchi o papel reclamei, ou melhor, sugeri que nesse supermercado tivessem cestas suficientes para fazermos nossas compras. Funcionou!

Esses departamentos que cuidam de sugestões, críticas e reclamações (quase) sempre funcionam. Acho que o mundo está ficando mais civilizado, ou talvez as empresas (finalmente) sacaram que você deixará de ser cliente se não te tratarem bem. Tudo em função do capital (ismo) que faz girar o mundo.

Pego minha cestinha na porta do supermercado. Entro na fila para comprar pão francês (sim, pão francês de carboidrato simples, aquele realmente odiado por todas as nutricionistas por não terem fibras, por quebrarem mais fácil no seu estômago, darem menos saciedade, etc, etc). Penso no cardápio da noite: pão francês com polenguinho, recheado com bife e cebolas fritas – o típico “churrasco” dos botecos mais conhecidos.

Sim, meus senhores, eu também como essas coisas politicamente incorretas, devo admitir. E como feliz. Se você está lendo indignado esse texto, digo que como não só um, como dois, à noite e acompanhado de uma long neck. Prato que qualquer leitora da revista “boa forma” abominaria com todas as suas forças. Mas sou feliz assim, muito feliz.

Voltando. Estou na fila do pão e na minha frente está uma senhorinha idosa, muito simpática e faladeira que só. Puxou assunto comigo e falou tanto, mas tanto, que o moço do pão teve que perguntar mais de uma vez: quantos pães, senhora?

Pego meus pães, lembro que o estoque de miojo de casa acabou (sempre recorro a eles quando chego em casa tarde, faminta, e sem vontade de pedir comida pelo telefone). Pego dois. Vejo que o prazo de validade é longo e pego mais três, cinco no total.

Vou para a fila que considero a menor e que (em tese) vai andar mais rápido. 99,9% das vezes a fila vizinha anda mais rápido. Não sei se é Murfy ou aquele papo de que o jardim do vizinho é sempre mais florido. Acho isso um pouco papo de doido, afinal, lá não tem vizinho e, muito menos, jardim.

Eis que finalmente chega minha vez de pagar. Coloco minhas compras no balcão do caixa: cinco miojos, uma cebola, dois pães franceses, uma caixa de polenguinho e uma long neck. Estou com o livro que estou lendo nas mãos. Me atrapalho um pouco para colocar a cestinha no chão, ao lado do balcão do caixa.

Nesse momento um rapaz educado me ajuda nessa operação. Percebo que ele está me observando muito atentamente. Primeiro, olhou o meu livro, depois olhou para as minhas compras. Comecei a pensar o que aquele sujeito deveria estar pensando a meu respeito.

Pensamento dele: “Ela mora sozinha, a julgar pelas coisas que está comprando. Nossa, cinco miojos! deve ser um para cada dia da semana. E essa cerveja? Vixe, ela é dessas que comem miojo, pão branco, tomam cerveja e depois reclamam das celulites que aparecem na bunda.” Fiquei com vontade de falar para ele: “olha, eu não vou comer tudo isso não. Eu guardo para emergências. Acho melhor ficar quieta. Ele vai pensar que sou doida. Nesse momento, começo a ficar com vergonha de mim, das coisas que como, do livro que estou lendo.

- Cartão fidelidade? Nota fiscal paulista? Pergunta a atendente do Caixa. Respondo não às duas perguntas e passo a embalar o mais rápido possível as minhas compras. Digito minha senha para o cartão de débito e saio do supermercado o mais rápido possível.

Não sei se era a fase do mês em que eu me encontrava. Prometi que a partir daquele dia não compraria mais de dois miojos juntos e que estava na hora de tomar o remédio para TPM.

terça-feira, 3 de março de 2009

Balzaquianas


A mulher de 30 anos é mais madura que a de 20, e isso faz uma grande diferença na vida da gente. Não acredita, veja lá:

Começaremos pelo figurino. Nessa idade, ela já firmou muito bem seu estilo e seu gosto pelas vestimentas. Ela já sabe só de olhar para uma peça se aquilo serve ou não para ela colocar em seu guarda-roupa. É nessa idade que tudo ainda fica muito bom e que ela pode usar de um tudo, a diferença, agora, é que ela já sabe contextualizar. Não vai conhecer a sogra de mini-saia. E não vai a uma entrevista de emprego de calça jeans.

As balzacas já sabem escolher um bom vinho, ou melhor, já sabem qual é seu vinho preferido. Na verdade, ela já entende um pouco das uvas dos vinhos, não é nenhuma enóloga, mas compreende a diferença entre o Cabernet Sauvignon, o Merlot, o Carmenere.

Ela já aprendeu a beber. Não que ela não fique bêbada. Ela ainda toma seus pileques (e vai tomar pelo resto da vida), mas não faz mais isso na frente de muita gente, como antes. Ela não fica rindo à toa e pagando mico com as amigas na frente dos homens na balada. A mulher de trinta vai a um barzinho descolado beber com as amigas e falar da vida, mas dificilmente você vai vê-la vomitando pelos postes, como outrora.

Ela aprendeu a se respeitar. Gosta do próprio corpo e já aprendeu que não vai ser magrela, estilo top model só porque está na moda. Ela já não faz, aliás, aquelas dietas da lua, de só comer carboidratos, de só comer proteínas para depois ficar se sentido fraca, com os cabelos caindo ou com as unhas quebradiças. Ela modera a alimentação e vai para a academia malhar quando se acaba no chocolate.

Pois é, ela já tem profissão definida e quando não tem, já sabe o que quer fazer e qual o caminho para chegar lá. Ela trabalha muito. Arrisco dizer que essa é a fase da vida que ela mais vai se dedicar à sua vida profissional. Nesse período, ela vai fazer pós-graduação, mestrado, dar um “up” no inglês e talvez aprender francês, italiano ou alemão.

É nessa fase também que ela vai mais sair com as amigas. Só que o foco agora não é só de ir a baladas. Ela também vai a restaurantes, cinemas e teatros com as amigas. Aliás, culturalmente a mulher de trinta já está muito mais evoluída. Já reconhece de longe um quadro do Van Gogh, quiçá, já viu um de perto. Ela se interessa mais por filosofia, psicologia e sabe que livro de auto-ajuda, não ajuda nada.

Ela ainda vê novela, mas não todas. Algumas não admitem que assistem. Mas que elas assistem, ah isso assistem e ainda torcem para a fulana acabar com o cicrano porque gosta de happy end. Ela adora comédia romântica e seu programa predileto é ver esses filmes num sábado preguiçoso.

Ela ainda é romântica, mas já deixou de ser boba. A grande maioria, pelo menos, sim. Ela já caiu em muita conversa mole no passado. Já se machucou pacas e não é qualquer rapaz que consegue, com aquele arzinho de bom moço, convencê-la em ir para a cama.

Por falar em cama. Ela já tem uma certa “quilometragem”. Ainda tem muita estrada pela frente, mas já tem experiência o suficiente para saber do que gosta e do que não gosta entre quatro paredes. Ela não tem mais vergonha de falar sobre sexo. Algumas até escrevem sobre isso em blogs e entram em fóruns de discussão sobre o assunto pela Internet.

Mas saiba que nem tudo são flores. As mulheres trintonas também sofrem, e muito! Carregam o peso de todo o discurso feminista que suas mães defenderam nos anos sessenta e setenta e agora rastejam com a carga em seus ombros. Elas já têm a tripla jornada antes mesmo de se casarem: trabalham o dia todo, se preocupam com o que vão comer à noite, são namoradas ou esposas dedicadas e já aprenderam que a depilação e a manicure devem estar sempre em dia.

A trintona, apesar de já ser mais madura, ainda não tem o equilíbrio pleno. Vive estressada e as neuras que outrora eram “será que ele me ama?” hoje em dia são “será que eu quero ter filhos?”, “quantos?”, “com quem?”. Algumas ficam em dúvida se preferem ser executivas bem-sucedidas ou mães de família de propaganda de margarina.

Existem até as que gostariam de ser donas-de-casa como antigamente. Assar bolos, cuidar pessoalmente da camisa do marido. Levar as crianças à escola, buscar, dar almoço, levar ao inglês, à natação, fazer o jantar. Preciso confessar que se às vezes sinto vontade de ser assim, especialmente quando vejo minha caixa de e-mails transbordando, o telefone tocando loucamente e dois prazos para entregar ainda de manhã. Mas quando as coisas se acalmam, a vontade passa, afinal, não sei como faz para engomar camisas. Nem sei se ainda fazem isso.

Algumas ainda não encontraram “o cara” e com o passar dos anos, do aumento natural no critério seletivo ou talvez pelo simples fato de não terem mais o pique dos vinte e poucos, acham mesmo que não vão encontrá-lo. Pura bobagem. Pessimismo natural dos 30 anos.

As de trinta são mais cínicas, mais decididas e talvez um pouco mais ousadas. Não têm medo de cara feia e se precisar ela grita, sapateia, arma um escândalo, mas não deixa de fazer o que quer só para agradar ao chefe, ao namorado, aos pais. Ela aprendeu que não vale a pena se anular só para fazer papel de boa moça, pelo simples fato de não ser mais moça. Agora ela já é mulher.

Sua relação com os seus pais também mudou bastante. Ela já consegue identificar muito claramente todos os defeitos deles. Já é madura o suficiente para dar conselhos à sua mãe e já conversa sobre a queda da bolsa com seu pai. Ela já aprendeu a não discutir sobre política, principalmente com sua família. Desistiu de fazê-los mudar de opinião. Aliás, aprendeu que a beleza está na diversidade, que cada ser é único, com suas qualidades, defeitos e opiniões.

Assim são as mulheres de trinta, especiais, divertidas, complexas, esperando que “o cara” apareça. De preferência com um “Concha y Toro - Casillero del Diablo” Cabernet Sauvignon – Safra Histórica 2007.

domingo, 1 de março de 2009

011



“É sempre lindo andar na cidade de São Paulo
O clima engana, a vida é grana em São Paulo”

Here I am. Nessa cidade poluída, mas aconchegante, diretamente do cafofo para todo o Brasil. Sim, porque essa história de internet é mais poderosa do que eu imaginava. Tem gente de tudo que é canto entrando nesse humilde blog. Já virou até international, tem gente de Portugal lendo, ora pois!

A residência e domicílio do cafofo, no entanto, estão aqui, em Sampa city. Essa sim é a cidade que nunca dorme. Você tem qualquer tipo de comida a distância de um telefone. Meu armário da cozinha é a prova viva: comida japonesa, chinesa, italiana, árabe, pastel, empada e tudo mais que você possa imaginar, você consegue falando apenas “alô eu gostaria de fazer um pedido”. E os restaurantes então? Os melhores do mundo, com a maior e melhor variedade.

Ah, você gosta de teatro, bem, vamos lá. Tem de todos os gêneros e para todos os bolsos. Cinema Europeu? Vá ao Reserva Cultural! Quer ver um filminho e depois dar uma voltinha e comer uma besteira, escolha qual dos shoppings você quer ir.

Nessa cidade, você pode tudo! Quem mora aqui não quer sair. Quem vem conhecer, não quer voltar. Ela é linda, imponente, viva, dinâmica e cinza. Cinza sim, mas tem também vermelho do Masp, o verde dos parques e o amarelo do Sol. O céu anda meio cinza, mas no verão ele consegue dar uma escapadinha da poluição e fica azulzinho, bonitão.

Não tem coisa melhor do que andar pela Avenida Paulista ou pela Faria Lima na hora do almoço de um dia útil. Você sente a cidade pulsando. As pessoas indo almoçar, algumas com pressa, outras com sorriso no rosto, comentando algo divertido ou irreverente.

E as mulheres paulistanas, então? Sou suspeita para falar, pois eu sou uma delas, mas olha, elas dão um show. Usam as saias no tamanho certo. Sabem se maquiar, são bem sucedidas, independentes, bem resolvidas. Trabalham muito, é verdade. Mas fazem isso, geralmente, por opção.



A noite nessa cidade é algo esplendoroso. As melhores boates, os melhores inferninhos estão aqui. A rua Augusta voltou a ser ponto de encontro dos jovens que agora convivem com as casas de mulheres cuja profissão é talvez a mais antiga do mundo. Tudo numa boa, sem o menor constrangimento.



Tem também muitos museus, várias exposições, uma coisa de doido. Quem gosta de arte se esbalda. Ano passado, por exemplo, vi uma exposição da Yoko Ono, da Tarsila do Amaral e do Lasar Segal a preços módicos (não custaram nem R$ 2, 00 cada uma). Vi também o Saramago de perto e de graça! É só saber procurar, não tem chabu.

A cidade tem seus problemas, é verdade, anda meio descuidada, um pouco abandonada, com muita violência, muita pobreza e muita poluição.

Mas também tem uma mistura de dar inveja. Aqui você encontra todas as nacionalidades possíveis e imagináveis e todas convivendo numa ótima: portugueses, italianos, alemães, africanos, chineses, coreanos, americanos, franceses, enfim, gente do mundo inteiro já aportou por aqui.

Ela é sim, uma cidade realmente maravilhosa de se morar. Eu não troco essa cidade por nada.
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